segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Resenha do filme “NO” (Diretor: Pablo Larrain)

Em 1988 foi realizada uma consulta popular sobre a continuidade do general Augusto Pinochet no poder do Chile. Parte da oposição ao ditador enxergou a votação como a única forma de encerrar a ditadura chilena, marcada por um longo período de perseguição política, desaparecimentos, mortes, concentração de poder, suspensão dos direitos fundamentais e por um choque neoliberal – importado - brutal, que deixou 40% da população em péssimas condições econômicas. Pela ótica de René Saavedra, um publicitário chileno, acompanhamos o desenrolar das campanhas pela permanência do general (SIM) ou por sua saída (NÃO).

Logo de início já conhecemos as duas faces do governo pinochetista: de um lado alguns pequenos grupos privilegiados com a “liberdade econômica” e de outro o terror da ditadura, com perseguição a opositores (GALEANO, 1987). Essas faces nos são apresentadas dentro da casa de René, na convivência com sua companheira e filho: enquanto o publicitário tinha uma vida confortável – podendo adquirir até mesmo os últimos lançamentos tecnológicos, como o micro-ondas – sua companheira mora em uma casa de fachada nada pomposa e é presa e agredida inúmeras vezes durante o filme. Todavia, há um componente comum: os dois trabalham para o fim da ditadura, de maneiras diferentes.

A companheira de René era uma militante, que enfrentava os militares na rua. René nos foi apresentado conformado com o regime, posto que, ao ser convidado para a campanha do NÃO apresentou alguma resistência inicial, que em parte se deveu ao chefe – publicitário responsável pela campanha do SIM – e, em parte, pelo terror que a ditadura conseguia transmitir, onde os indignados com o sistema eram tratados como traidores da pátria, exilados em sua própria terra, se tornando cada vez menos dispostos a  se indignar contra a injustiça (GALEANO, 1987).

A campanha pelo SIM era baseada em uma distorção que pretendia fazer entender o governo de Pinochet como um governo legal/legítimo, com menos “aparência” militar. Prova disso é que o publicitário e alguns ministros insistem para que o general aparecesse sem a farda, reforçando uma imagem mais paternal de Pinochet. “Obrigado por nos dar onde morar, presidente!” dizia uma criança na propaganda. Era uma operação mental para atingir a subjetividade social de forma a tornar dominante a ideia de que o regime chileno era legitimo (ROUQUIE, s/d). 

A campanha pelo NÃO apresentou várias dificuldades: havia muitos partidos na oposição, haviam dúvidas sobre retratar ou não a face violenta do regime. Fora o medo de que o outro lado não aceitasse o resultado. Fato é que a campanha pelo NÃO foi “alegre”, com poucas representações do terror instaurado por Pinochet. O objetivo era tornar o NÃO mais tragável, e aqui há várias questões levantadas no próprio filme e que precisam ser debatidas, como: quem era essa gente feliz? o que estavam festejando? era realmente tempo de alegria?, mas que careceriam de mais que o limite de espaço desse texto.

O filme acabou com o resultado que já conhecemos: o NÃO venceu. Isso concretiza a afirmação de Rouquié (s/d) sobre as eleições: não são mais do que uma forma de expressar as relações de força. Assim que a consulta publica apontou um vencedor, o comitê pelo “NÃO” foi cercado e teve a luz cortada. Porém, quando os generais começam a abandonar Pinochet – o que é transmitido pela televisão – as relações de força mudam e o governo cai, aceitando a vitória dos opositores.

 

Referências bibliográficas

Rouquié, Alain. Dictadores, militares y legitimidad en América Latina. Revista Crítica e Utopia, N. 5.  

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina.  (Pósfacio – Sete anos despois) 25ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987 [1976]. 

 

  

Resenha de “La teta asustada” (Dir. Claudia Llosa)

 

A Teta Assustada narra a história de Fausta, moradora de um povoado próximo de Lima. Na canção de abertura do filme descobrimos que sua mãe, estuprada décadas atrás, com Fausta ainda no útero, fato que teria originado a doença da “Teta Assustada”: um medo de viver supostamente transmitido pelo leite materno. A trama começa a se desenrolar com a morte da mãe de Fausta, o que leva a jovem a buscar um modo de levar sua mãe para o vilarejo de onde vieram a fim de garantir um enterro digno. Para tanto ela teria que enfrentar sua "doença" que se expressava no medo constante de ser violada, tendo por consequência uma péssima capacidade de se relacionar com qualquer pessoa, mas principalmente homens, mesmo das formas mais simples como apenas conversar. Medo esse que levou a jovem a introduzir uma batata na própria vagina como método de proteção: "Só o asco impede o asqueroso".

Interpretada pelo prisma que Verena Stolcke (2000) propõe, a “doença” de Fausta é uma forma de naturalizar ideologicamente as desigualdades e problemas sociais, a exemplo da cultura do estupro no filme. Essa naturalização se dá atribuindo a um fator natural/biológico questões sociológicas/cosmológicas, operando da mesma forma que a ideia de “raça”.

Por esse prisma, o longa acaba demonstrando nitidamente como a “naturalização” ideológica é central na reprodução da sociedade de classes, pois os reflexos da “doença” impedem Fausta de viver como as outras pessoas e abrem caminho para o roubo, literalmente no filme, das potencialidades da jovem. E o mais perverso é a eficácia dessa “naturalização” para a continuidade dos problemas sociais, pois as pessoas mais próximas de Fausta aderem ao raciocínio de que o medo constante é fruto da doença e não de um problema real cotidiano.

Para conseguir dinheiro para enterrar sua mãe, Fausta se sujeita a uma série de trabalhos, entre eles o de empregada doméstica em uma casa pomposa em Lima. Atentemo-nos para a empregada que a recebe: negra e com o filho na cadeia. Na casa, é estabelecida uma situação inusitada de exploração: a chefa branca de Fausta plagia uma das canções criadas pela jovem, é o roubo de potencialidade citado anteriormente. Depois de apresentar a canção ao pública, a chefa demite a jovem a abandonando na estrada a noite.

Esse emprego na casa é cheio de significados que podem ser explorados com o texto de Stolcke (2000). Primeiramente o racismo implícito como constituinte da desigualdade de classes no fato da chefa ser branca e as funcionárias serem negra e nativa peruana. Em um nível mais profundo de análise pode-se dizer que há também uma vinculação de mulheres, nesse caso negras e nativas, com o serviço doméstico, que contribui para a reprodução da desigualdade social. No limite é mais uma experiencia de opressão enfrentada pelas mulheres e marcadas por características fenotípicas.

Encerro chamando atenção para o fato de que na mesma casa em que Fausta trabalha como empregada doméstica, ela conhece o jardineiro, um sujeito de hábitos simples preocupado com o bem estar da jovem. Todavia, seguindo ainda as ideias de Stolcke (2000), há nessa relação entre Fausta e o jardineiro mais uma forma de “naturalização” do domínio masculina sobre as mulheres, reforçando a ideia de que elas necessitam de proteção masculina. O filme se encerra com um grande rompimento: Fausta passa por uma cirurgia para retirar a batata e, a caminho de enterrar sua mãe, pede para descer do carro que era conduzido por um homem, seu tio. Metaforicamente ela toma a direção da sua vida.

 Referências

STOLCKE, Verena ¿Es el sexo para el género lo que la raza para la etnicidad... y la naturaleza para la sociedad? Revista Política y Cultura, número 014Universidad Autónoma Metropolitana - XochimilcoDistrito Federal, Méxicopp. 25-60

Resenha de “También la lluvia” (Diretora: Icíar Bollaín)

 

O filme “También la lluvia” (2010) foi um soco no estômago por demonstrar como a dominação ocidental continuou – e continua - operando por séculos depois do fim da colonização. Isso foi feito com a vinculação do modus operandi do neoliberalismo com o dos primeiros colonos. O filme acompanhou a história de uma equipe de cinema que estava na Bolívia para gravar um filme sobre a chegada de Colombo nas Américas, com foco na história de Las Casas. Os nativos do século XV foram encenados pelos moradores da cidade em que as gravações ocorreram. O contexto das gravações era a “Guerra da Água”, um conflito que ocorreu nos anos 2000 em decorrência da tentativa de privatização do abastecimento de água. Buscando compreender um pouco mais sobre a ligação entre colonização e neoliberalismo recorreu-se a Theotonio dos Santos (s/d).

O ponto de encontro entre colonialismo e neoliberalismo no filme foi a exploração. Essa ideia foi muito bem representada usando os povos quíchua para encenar os nativos do XV. Houve uma serie de acontecimentos similares nos desdobramentos, mas distantes temporalmente. De início, a própria forma com que a equipe de filmagem se relacionou com os bolivianos deixou a exploração em nome do lucro evidente. A cena mais marcante disso, logo nos primeiros minutos de filme foi quando os bolivianos levantam uma cruz com mais de 7 metros correndo riscos sérios de vida. Risco esse que é reconhecido pelo diretor Sebastián, mas que é justificado por Costa com o argumento de que era uma economia de “trinta e cinco mil”. Essa situação é indiretamente um reflexo das medidas neoliberais que, como afirma Santos (s/d), puxam os salários para baixo. Mais adiante esse reflexo indireto se torna bem direto numa conversa de Costa ao telefone, em que ele fala sobre a felicidade dos bolivianos em receber apenas dois dólares por dia e como isso é benéfico para a produtora.

A questão dos salários baixos foi retomada em outra cena que resume a cosmologia neoliberal: durante a ocupação da praça pelos cidadãos indignados com a privatização da água, a equipe de filmagem travou um curto debate com um político boliviano sobre a razão – ou ausência dela – na invasão na praça. De um lado os membros da equipe afirmam que as pessoas estavam certas em resistir ao aumento da tarifa, pois recebiam apenas dois dólares por dia. A resposta do político foi em defesa da globalização, afirmando que o “vitimismo” daquelas pessoas impedia a modernização, que se o governo cedesse apenas 1 centímetro, os indígenas provavelmente os levariam “de volta à idade da pedra” e que o salário de dois dólares era o mesmo salário pago pela produtora.

Observemos ponto a ponto da resposta do político tendo por prisma o texto de Santos (s/d). Primeiramente, a ideia de “retornar à idade da pedra” retoma uma dualidade antiga entre civilização e barbárie, onde a elite letrada – aqui representada pelo político – justificou um suposto atraso em relação a “evolução rápida” do mundo de prevalência de valores culturais ocidentais pela presença cultural, social e étnica majoritariamente não-europeia. Isso é reforçado pela afirmação de “vitimismo”, que escancara a dicotomia entre o moderno e o arcaico, entre o urbano e o rural, entre o progresso e o atraso que imperou desde a colonização, obscurecendo o protagonismo das etnias não-europeias. Se atentarmos para alguns minutos antes desse debate entre a equipe e o produtor, ouviremos um agradecimento pela produção de um filme sobre Las Casas e não sobre os nativos americanos que passaram pelo processo de subjugação. Essa é uma armadilha comum na qual muitos de nós caímos ainda hoje: contar uma história sobre um suposto defensor de boas práticas, a frente de seu tempo e não dos oprimidos.

Outro ponto interessante da fala do político foi o de “não recuar 1 centímetro”, relembrando a “Teoria do Choque” empregada no processo de implantação neoliberal que tinha por método a imposição de um "ajuste estrutural" aos países dependentes, que assistiam a uma elevação da taxa de juro internacional, sugando os excedentes econômicos do país atingido, e resultando em estagnação e retrocesso econômico-social. O que retoma a questão inicial dos dois dólares, pois um dos efeitos diretos desse ajuste é a rebaixa brutal dos níveis salariais e da participação dos salários nas rendas nacionais, abrindo precedentes para a marginalização social, a pobreza e a indigência (SANTOS, s/d).

Saindo do debate econômico, gostaria de encerrar comentando sobre as cenas em que os bolivianos, com uma caracterização que se constituiu estereótipo de indígena ao longo do tempo resistem a empreitada policial contra Daniel, uma liderança tanto no enredo do filme, quanto na luta contra a privatização, sendo ele um sobrevivente, o real “homem contra o império” do qual Costa falou para animar Sebastian a sair da cama. Além disso, me chama atenção o uso dos cachorros nas filmagens, o que é fiel aos relatos históricos, e posteriormente o uso dos mesmos animais pela força policial na contenção de manifestantes. Os anos passam, mas as armas – físicas e subjetivas – continuam as mesmas.

 

Referência bibliográfica

SANTOS, Teotônio. O desenvolvimento latino-americano: passado, presente e futuro. Uma homenagem a André Gunder Frank. s/d.

Resenha de “Sin nombre” (Diretor: Cary Fukunaga)

 

"Sin Nombre" é um filme sensível às adversidades que as pessoas enfrentam para chegar ao norte global. A questão da imigração ilegal é central. As pessoas que se submetem a esse processo colocam suas vidas em risco por semanas ou meses em busca do fictício "sonho americano". O filme narra duas histórias. Uma envolve Sayra, uma jovem hondurenha que se junta ao pai e ao tio em uma viagem pela Guatemala e pelo México com o objetivo de encontrar parentes em Nova Jersey. O outro envolve Willy, apelidado de Casper, um jovem membro de uma gangue do México, que se junta a seu líder e a um recruta de 12 anos para roubar os imigrantes no topo de vagões de carga. Seus caminhos se cruzam. As motivações são diferentes.  A história de Sayra é “clássica”: ela e seus parentes são motivados pela busca por melhores condições de vida em Nova Jersey. Casper, por outro lado, viaja depois de ter matado o líder de sua gangue, fato pelo qual sabe que morrerá. Casper cria um vínculo com Sayra após tê-la salvado de um estupro. O problema dessa união é que ele é um homem condenado, ninguém o protegerá das gangues.

A união dos dois demonstra o quanto as migrações modernas estão fortemente ligadas com a racialização, o colonialismo, a expansão do capitalismo e as decorrentes estruturas de dominação e, principalmente, desigualdades sociais. Além de jogar luz sobre o espectro amplo de fatores que podem levar a migração: trabalho, trânsito, união familiar, causas ambientais, aposentadoria, estudo, aspectos afetivos, gênero, conflitos e guerras (o fator mais latente no filme), entre outros. Devendo ser interpretada sob o prisma de múltiplos aspectos que se conectam, sendo eles o: social, cultural, histórico, geográfico, econômico, entre outros (CAVALCANTI et.al, 2017).

De uma forma ou de outra, ambos acabam caindo na ilusão do "sonho americano". O sonho é chegar aos Estados Unidos. O pesadelo é fazer a jornada para chegar lá. As circunstâncias nas quais os protagonistas se encontravam não eram muito promissoras e Nova Jersey e o Texas acabam representando como um paraíso para onde os protagonistas podem fugir. O filme é sobre a imigração ilegal, porém quase nada de seu tempo de execução acontece dentro das fronteiras dos Estados Unidos. O foco central são os fatores que fazem com que alguns indivíduos corram o risco de encarceramento, deportação – no caso do tio de Sayra – e até a morte – como se sucedeu com o pai da protagonista -  por uma chance de cruzar a fronteira e escapar dos ciclos de pobreza, impotência e violência de gangues, reforçando o papel das consequências da expansão do capitalismo nas migrações.

No caminho as personagens encontram vários locais de apoio aos imigrantes, organizações privadas e instituições voluntárias tornam o projeto migratório um pouco mais fácil. São instituições e organizações que ocuparam o espaço no mercado criado pelo desequilíbrio entre o número de pessoas que pretendem entrar nos países ricos e o número de vistos concedidos para entrada neles, atuando até mesmo no mercado ilegal, promovendo serviços de transporte – como o caso da “tia” de Casper – ou travessia de fronteira além de trabalho para imigrantes sem identidade, falsificação de documentos, casamentos por conveniência, entre outros. Há também instituições voluntárias – como é o caso da Casa de Caridade gerida por freiras no longa – que fornecem orientações, serviços de assistência básica e assessoramento jurídico. Com o tempo e o número de imigrantes que obtém sucesso na viagem, essas entidades vão se tornando mais conhecidas e “tornam-se suportes fundamentais que viabilizam os projetos migratórios, dando origem à concepção de indústria migratória” (CAVALCANTI et.al, 2017).

Há também que se falar da pessoa que espera os imigrantes no fim de sua jornada. A pessoa de quem a protagonista é obrigada a decorar o número de telefone na primeira metade do longa. Ela é a representação das redes migratórias em que as pessoas se apoiam para ganhar acesso a recursos e diminuir possíveis riscos econômicos, sociais e psicológicos do processo migratório, estremecendo as bases individualistas da ideologia capitalista (CAVALCANTI et.al, 2017).

É impossível deixar de citar o pequeno Smiley, com seu sorriso cativante, é o personagem mais assustador, por demonstrar como um efeito poderoso, mesmo hipnótico, a cultura de gangue pode ter sobre os desassistidos. A seus olhos, o Mago – líder da gangue assassinado por Casper no trem – é ​​uma inspiração. A gangue oferece status de colega e ocupa o papel de prestadora de serviços sociais que deveria ser do estado. Para oprimidos e marginalizados, a participação na gangue oferece a oportunidade de ser respeitado mesmo que por meio do medo e da intimidação.

 

Referência

CAVALCANTI, Leonardo, et.al., Dicionário crítico de migrações internacionais. Ed. UnB. Brasília. 2017. (Introdução - Um convite às teorias e conceitos sobre migrações internacionais / Verbetes: Imigrante (imigração) e Indústria das migrações).

 

 

 

Resenha de “Memoria del Saqueo” (Dir. Pino Solanas)

 

“Memoria del Saqueo” (2004) é um documentário sobre a história argentina recente que demonstra como um país rico ruiu, abrindo um enorme fosse entre ricos e pobres, elevando as taxas de desemprego, miséria e indigência, propiciando um verdadeiro genocídio social. O longa passa pelos governos de Raul Alfonsín (1983-1989), Carlos Saul Menem (1989-1999), e termina com Fernando De la Rúa (1999-2001).

O contexto econômico era de desequilíbrio, pois, na década de 80, com a apreciação do valor do dólar, as exportações de matérias primas acabaram entrando em colapso, resultando numa contração dos mercados exportadores. O antigo motor da economia já não funcionava tão bem (MARTÍNEZ RANGEL & SOTO REYES,2012). Surge nesse momento o “reformismo” do Consenso de Washington, pregando a abertura dos mercados, austeridade fiscal, privatizações e encolhimento do estado, tópicos bem marcados pelo documentário (BORÓN, 2004).

Apesar de muitas promessas, as conquistas foram poucas e nem são apresentadas no filme, até porque as consequências da adoção das medidas neoliberais invalidam qualquer avanço possível. O povo argentino foi afogado numa onda de pobreza, indigência e exclusão social, se tornando cava vez mais vulnerável e dependente (BORÓN, 2004). Mesmo com a reação dos argentinos, saindo as ruas, a violência, em diferentes formas, tomou conta do país. Fosse ela direta, praticada pelos militares responsáveis por dispersar as manifestações, fosse pelas mentiras proferidas pela classe política viciada, aliada das grandes corporações; fosse ainda a violência silenciosa dos ajustes que matava de fome 35 mil crianças, adultos e idosos por ano. 

Assim se fundou uma “mafiocracia” na qual o poder econômico, a justiça e os narcotraficantes aplaudiam a espetacularização da política, assistindo a republica ser degradada em ritmo acelerado. A dita “destruição criadora” só cumpriu a primeira promessa, vendendo estatais e sucateando as estruturas já existentes; e os governantes já não se preocupavam mais em combater a pobreza, a ideia era combater os pobres, com mais e mais ajustes, confiscos e corrupção (BORÓN, 2004). A esse tempo, o Consenso de Washington já havia se convertido numa ideologia para além de propostas econômicas, se tornando uma ferramenta de controle do estado financiada por megacorporações da qual os países latinos necessitavam para conquistar a aprovação dos organismos internacionais (MARTÍNEZ RANGEL & SOTO REYES,2012).

O filme encerra com a saída de Fernando De la Rúa do poder. Apesar da vitória temporária da população argentina, em 2001, até hoje (2020) é latente a necessidade de projetos de esquerda inovadores que presem pela democracia – e, por consequência, por menos capitalismo – e pela integração regional, garantindo aos latinos melhores condições de vida, fortalecendo as empresas locais para uma competição em igualdade de circunstancias com as outras partes do globo (BORÓN, 2004; MARTÍNEZ RANGEL & SOTO REYES,2012).

 

Referências bibliográficas

MARTÍNEZ RANGEL, Rubí; SOTO REYES, Garmendia Ernesto.  El Consenso de Washington: la instauración de las políticas neoliberales en América Latina. Revista Política y Cultura, primavera 2012, núm. 37, pp. 35-64.

BORÓN, Atílio. Introdución: Después del saqueo: El capitalismo latino-americano a comienzos del neuvo siglo.  In: Estado, capitalismo y democracia em América Latina. CLACSO, Junio de 2004. 

 

 

Resenha de “Amores Perros” (Dir. Alejandro González Iñárritu)

 

É assustador imaginar que em pleno século XXI ainda haja espaço no debate acadêmico para teorias em que o social aparece como biológico para explicar desigualdades de renda e desenvolvimento educacional através da composição genética de cada pessoa, invocando raças “superiores” e “inferiores” (NAVARRO, 2013). É assustador, porém aconteceu – e acontece – como nos revela o pequeno texto de Navarro (2013), em que ficou exposto um estudo de Harvard, claramente racista, cheio de inconsistências metodológicas que defendia uma falsa uniformidade genética para explicar a pobreza latino-americana. Essa falácia poderia ser desconstruída de muitas formas, porém, façamos desse momento algo proveitoso, nos debruçando sobre o filme “Amores Perros” (2000), dirigido por Alejandro González Iñárritu.

O longa agregou três histórias diferentes envolvendo traição, violências, diferentes classes sociais e cachorros. Não existiam heróis ou vilões, eram pessoas normais sofrendo com as consequências das escolhas que faziam, demonstrando que independente de genética, no fim são nossas escolhas que realmente importam. Escolher tentar seduzir a esposa do irmão, escolher abandonar a mulher e filhas para se casar novamente, escolher matar, escolher cuidar, escolher ajudar, penosamente escolher.

Escolhas limitadas por classes sociais, obviamente. E a melhor demonstração dessas limitações impostas por classes são os cachorros: na primeira parte, intitulada Octavio y Susana, os cachorros são amados como método de fazer dinheiro. Os animais são colocados para brigar em rinhas sangrentas. São reflexo da violência que os donos sofriam cotidianamente, apertados em casas pequenas, sem empregos de qualidade, preocupados com o bem estar de crianças, vivenciando abusos, em suma, desassistidos. Na segunda parte, o casal Daniel e Valeria, empresário e modelo, enchem o cachorro de mimos, porque eles não precisam fazer dinheiro com o cachorro, e mesmo assim, acabam enfiando o cachorro num buraco (literal e metaforicamente).

A terceira história é diferente das demais: o Chivo, um caminhante que cuidava de inúmeros cachorros, estava numa jornada de redenção. Ele é a demonstração pura e simples de que a vida, pra muito além de expressões do genótipo, é feita de escolhas: ele escolheu abandonar a família e o emprego, escolheu acreditar em um mundo melhor, escolheu lutar contra as limitações que lhe foram impostas depois da prisão – por métodos violentos, mas como julga-lo nas condições que o cercava? – e, diferentemente das outras duas histórias em que as escolhas caminharam pra dor e morte, a caminhada de vida de Chivo é ascendente, encaixotando o argumento do estudo de Harvard.

 

Referências

NAVARRO, Vicenç, Las teorias geneticistas de las desigualdades, Público, 15 de agosto de 2013.

 

 

Resenha de “A missão” (Dir. Roland Joffé)

 Retratando o período pombalino, o filme “A missão” (1986) conseguiu transmitir em cerca de 120 minutos parte dos conflitos sociais e contradições políticas da América nos séculos de colonização.  A partir das reflexões de Quijano (2004), essa resenha objetivou se debruçar sobre o longa com um olhar atendo aos absurdos que marcaram a história do “Novo Mundo”. O filme acompanha os dias de um padre jesuíta Gabriel na Missão de São Carlos com indígenas Guarani. O conflito inicial surgiu no encontro do padre com um comerciante de escravos Rodrigo Mendoza, que capturou alguns nativos na região da missão, o que era proibido pelas leis espanholas. Esse mesmo comerciante, pouco depois, acabou cometendo um crime passional e, numa jornada de redenção, passou a acompanhar o padre jesuíta na missão com os Guarani. O contexto político era de instabilidade, pois o território estava sendo redividido entre Portugal e Espanha. Portugal tinha interesse no trabalho escravo dos indígenas. E quando o território em que a missão estava localizada passou a ser de Portugal, os nativos entram em guerra com os agentes da coroa, terminando em um banho de sangue.

A violência no processo de conquista não é uma novidade. Mas, como bem aponta Quijano (2004) e como o filme deixou subentendido, a maior ameaça aos povos nativos era a escravização. Essa afirmação é reforçada pelo trecho em que um dos representantes de Pombal afirmou que os nativos não eram humanos, pois assassinavam os seus filhos. O padre jesuíta retrucou afirmando que matavam como estratégia de sobrevivência, pois só poderiam carregar um filho durante as fugas que tinham de empreender com a aproximação de mercenários e representantes das coroas.

Essa passagem do filme é muito significativa não só pela citação do infanticídio – que ainda é retomada em narrativas contemporâneas para justificar intervenção no modo de vida dos povos ancestrais -, mas por dois outros fatores que marcam o período colonial e estão presentes no texto de Quijano (2004). O primeiro deles é a questão “do corpo”. O indígena é apontado pelo representante de Portugal como um “animal com voz humana”, em outras palavras, um corpo desprovido de razão e que, justamente por isso, pode ser caçado, escravizado e morto. Um corpo sem espírito, entregue aos anseios puramente naturais, que “desconhece o direito de propriedade e a lei real”. Essa dualidade entre espírito e natureza é a segunda questão significativa que não se pode deixar de apontar.

O nativo é menos humano ou não é humano enquanto está na “natureza” (aqui como sinônimo de meio ambiente, mas que também pode aparecer como “estado de natureza”), o que é reforçado mais a frente no filme com falas dos próprios nativos: “O diabo vive na floresta” ou “Saímos da floresta por vontade de Deus”. Essa dualidade foi marcante no discurso moderno, onde a ideia de uma “civilização” - europeia e branca - só tinha sentido com a sua oposição à vida com a mata de pé. Ser civilizado era sinônimo de “domar” o meio ambiente. Essa cosmologia serviu de embasamento para as atrocidades cometidas pelos colonos, como bem indicou a própria autoridade portuguesa enviada para avaliar a transferência de terras, quando, ao falar do massacre final, afirmou: “O mundo não é assim... nós o fizemos assim”.

Entretanto, há que se pensar também que essa oposição entre civilização e natureza não é válida a todo momento no discurso do colonizador. A mesma natureza alheia a razão, é espaço de contemplação, descrito como "jardim do Éden", onde havia "contado mais próximo com Deus". Isso revela mais contradições entre as ideias dos colonos, que, como dito por Quijano (2004), não tinham muitos interesses comuns, longe de serem um bloco monolítico. Não caiamos também na armadilha de reduzir os povos indígenas a um único bloco homogêneo. São diversos povos com cosmologias diferentes, como pôde ser apreciado no filme, durante a guerra final: os portugueses tinham como aliados alguns nativos que atearam fogo a missão que os Guarani tentavam defender. Podemos ir mais fundo, identificando entre os próprios defensores da missão aqueles que pegaram em armas e foram combater os colonos e aqueles que se juntaram na resistência passiva, que nos enche os olhos numa cena belíssima de uma procissão durante a guerra.

Encerro com um último comentário sobre as missões e os jesuítas, que podem parecer heróis momentaneamente, por exemplo, no momento em que o padre afirmou que as missões eram o último refúgio dos nativos. Não sejamos ingênuos a ponto de deixar de reconhecer a violência implícita na evangelização, pois o controle sobre a subjetividade, a cultura e o conhecimento foi, e ainda é, uma das principais formas de dominação.

 

Referência bibliográfica

QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. Revista Venezolana de Economia y Ciencias Sociales. Enero/abril, Año/Vol.10, Número 001. Universidad Central de Venezuela. Caracas, Venezuela, 2004, pp. 7

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