terça-feira, 12 de julho de 2022

Resenha de "As comunidades negras rurais nas ciências sociais no Brasil"

 SANTOS, Carlos Alexandre B. Plínio dos. “As comunidades negras rurais nas ciências sociais no Brasil: de Nina Rodrigues à era dos programas de pós-graduação em antropologia”, Anuário Antropológico. V.40 n.1, 2015. [Online] (Pp.75-106).


Lendo os dois textos, prefiro resenhar o primeiro, do prof. Carlos Alexandre dos Santos, por preferir a forma como o autor escolheu para sintetizar sua bibliografia. 

No texto há um mapeamento do que já foi produzido sobre o negro em 4 períodos historicamente diferenciados, sendo eles respectivamente: histórico, carismático, burocrático e dos estudos rurais. 

O primeiro período compreende a segunda metade do século XIX até às primeiras décadas do século XX. É marcado por uma produção pautada no determinismo racial, partindo de uma concepção evolucionista muito influenciada pelas ciências naturais para tentar responder questões sociais latentes (criminalidade e mestiçagem). É um período em que os pesquisadores olhavam para os negros tentando encontrar o motivo para problemas que afligiam especialmente os brancos, resultando num etnocentrismo cheio de lacunas, característica da maioria dos estudos com teor determinista. 

O período carismático compreende basicamente o período dos governos Vargas, marcados por um movimento de reescrita da história e das teorias sobre o Brasil. É nessa fase que o país se torna uma vitrine internacional da "democracia racial", mito que afirmava não haver racismo no Brasil. Os estudos deixaram o paradigma evolucionista e passaram a utilizar o conceito de estrutura, apoiando as teses defendidas pelos autores em estudos empíricos com foco no que ficou conhecido como "problema racial". Se no período anterior a produção acadêmica se preocupou com encontrar as raízes dos problemas dos brancos, aqui a ideia central era esconder os problemas.

Como reflexo do período carismático e da crítica a democracia racial que marcou o seu fim, organizações internacionais passaram a investir em estudos sobre a real integração do negro na sociedade ocidental. Buscando justificar uma integração parcial constatada em diversos estudos, foi criado o paradigma da aculturação, que via o apagamento das raízes dos não brancos ao participarem da vida em sociedade. Foi importante para a época por denunciar uma série de atos empreendidos pela ditadura militar no campo e nas cidades, atropelando os "indesejados". O problema da aculturação, denunciado anos mais tarde, é justamente deixar de notar a resistência na vida cotidiana de inúmeras comunidades negras espalhadas pelo país.

E, por fim, o período dos estudos rurais, no qual ainda nos encontramos, quando viramos a chave do paradigma da aculturação e passamos a olhar as inúmeras comunidades negras (no campo e na cidade) como remanescentes de quilombo. Nessa fase, houve um destaque maior para as comunidades rurais até então sem muita atenção dos pesquisadores. É a fase de expansão dos programas de pós-graduação em Antropologia pelo país, levando as inquietações próprias dessa área de conhecimento para "os sertões". É importante dizer também que é nessa fase que os interlocutores de pesquisa passam a ocupar espaços da academia trazendo novas indagações à primazia branca e ocidental do fazer científico.

Já expus muito do que penso ao longo da resenha, mas - para encerrar - gostaria de acrescentar que esse texto me deu uma ideia para uma pós graduação: estudar a função social dos "papéis da terra", como foi a inserção e a construção da propriedade ocidental entre os Kalunga na margem do Prata para que em 2021, mesmo moradores que não dominam a leitura, estejam discutindo qual o melhor modelo de titulação e exigindo os "papéis da terra". Me parece que há fases de desenvolvimento dessa história recente de interação formal entre a comunidade e os órgãos de gestão fundiária do Estado e da União.


Teoria Sociológica I - ATIVIDADE I

Teoria Sociológica I  

Discentes: Francisco Sousa (Matrícula: 190045809); Guiliana Sidrin Brito (Matrícula: 190029188).

 

ATIVIDADE I

 

QUESTÃO 01.

Marx estabelece um vínculo entre o desenrolar histórico e as forças produtivas a partir do desenvolvimento dos modos de produção. Em síntese, o modo de produção condiciona os processos sociais a partir da consciência dos sujeitos determinada pelo ser social; ao atingir um determinado estágio de desenvolvimento, as forças produtivas presentes em uma sociedade entram em choque/contradição com as relações de produção vigentes, deixando de ser motores do desenvolvimento das forças produtivas e se tornando obstáculos. Nesse contexto de conflito de classes, abre-se espaço para a revolução social, motor da história.

Para chegar nessa conclusão, temos que partir das críticas que Marx fez a Hegel e Feuerbach. Quanto ao primeiro, são três os pontos centrais da crítica: (a) a separação entre sociedade civil e Estado; (b) a inversão de sujeito e predicado na interpretação idealista de Hegel; e (c) o fator que impede o controle total do Estado pelo povo, a famosa “alienação”.

Marx vai dizer que a teoria de Hegel sobre o Estado e a sociedade civil serve apenas para justificar a existência da monarquia; pois, ao contrário do que afirma Hegel, Marx demonstra que o Estado é produto da sociedade civil (e suas expressões, como a família), e continuamente dependente desta. Partindo desse ponto de vista, as proposições de Hegel constituem uma inversão da realidade, tornando o verdadeiro sujeito um predicado do predicado, farsa mantida graças às inúmeras ferramentas de alienação controladas pelas classes dominantes.

Marx volta o olhar para a dimensão humana, transformando os indivíduos que compõem a sociedade civil em agentes da realidade. Tal posição se torna ainda mais nítida ao analisarmos as críticas que o velho mouro faz a Feuerbach, afirmando que o expoente do materialismo concebia o mundo como um objetivo estático, valorizando apenas as atitudes humanas relacionadas ao pensamento e conhecimento, separadas das atitudes de mudança da realidade. Marx considera que tal separação é irreal e que Feuerbach erra ao considerar o mundo concreto como resultado de um processo natural distanciado das práticas sociais, um mundo de produção histórica. Com a conciliação crítica entre o idealismo hegeliano e o materialismo de Feuerbach, Marx dá luz ao chamado Materialismo histórico.

Uma das principais ideias da nova teoria se apresentava sob o guarda chuva do trabalho: a capacidade de produzir a partir do trabalho de forma cooperativa materializa as condições para satisfação das necessidades sociais; essa capacidade inicial de trabalho e todas as demais formas de aumentar a capacidade humana de trabalho se traduziam em forças produtivas. Importante destacar que essas formas ultrapassam, por exemplo, o encurtamento da distância entre matéria prima e artesão ou o desenvolvimento de uma máquina para diminuir o esforço humano: alcançam mesmo a forma como os sujeitos existem em sociedade, as leis e os costumes, e - no limite - os modos de atuação sobre a natureza para satisfação coletiva. Ou seja: um conjunto de relações entre humanos e meio, voltadas para a produção e para a realização social. Quando temos um conjunto definido e articulado econômica, política, jurídica, ideológica e socialmente, temos um modo de produção.

Ao acrescentarmos a essa síntese o fator classe, localizamos a metáfora da infra e da superestrutura: as balizas das relações entre classes de uma sociedade, originadas nas formas cooperativas de materialização das condições para satisfação das necessidades sociais compõem a infraestrutura; enquanto a superestrutura abriga a construção de uma consciência geral de aceitação e manutenção das relações entre classes gerida pelos grupos dominantes.

O desenvolvimento das forças produtivas, e - consequentemente - desse conjunto de relações, atua, para Marx, como o fundamento da história, de caráter majoritariamente progressivo (resultando em um modo de produção mais avançado/desenvolvido). Uso “majoritariamente” e não “sempre”, pois o próprio Marx deu exemplos de catástrofes ambientais e/ou sociais que resultaram em regressão. E esse processo de mudança de modos de produção é fruto de uma revolução social; daí a célebre frase “o conflito de classes é o motor da história”, atribuída a Marx. Tem-se assim o vínculo entre a história e as forças produtivas a partir do desenvolvimento dos modos de produção.

 

QUESTÃO 02.

O trabalho é extremamente importante no processo de constituição de uma pessoa como ser social. Através dele o homem pode se desenvolver, se humanizar, embora seja considerado apenas como categoria social e não sendo a única categoria necessária; através dele que podemos ter uma mediação entre a natureza e a sociedade, de certa forma o homem aprende a dominar a natureza, produzindo condições materiais objetivas e subjetivas necessárias para nossa existência em sociedade visando suprir necessidades, entretanto o trabalho não somente vem para produzir algo que seja exclusivamente para suprir as necessidades individuais, através dele podemos também abranger necessidades coletivas.

Dentro de um sistema capitalista tudo é transformado em mercadoria, inclusive o próprio trabalho, o homem que não é detentor de uma determinada mercadoria tem somente sua força de trabalho para oferecer ao capital. A grande questão é que nem todas as horas dedicadas ao trabalho são revertidas no salário do trabalhador. Ao menos metade dessas horas acabam sendo revertidas em mais-valia, ou seja, o trabalhador por um determinado momento produz o necessário, até que começa a produzir a mais do que de forma justa lhe é repassado como salário daquele serviço.

O homem acaba entrando em ciclo vicioso de viver pelo trabalho visando sua realização em poder adquirir mercadorias e acaba se desvalorizando ao produzir mais-valia, já que quanto mais ele produz mais ele se torna uma mão de obra barata. Existe todo um processo de alienação dos meios de produção a partir da revolução industrial, o trabalhador passa a ser uma espécie de servo das máquinas, além de se tornar uma propriedade da burguesia por “oferecer” sua mão de obra mas também sendo totalmente alienado do valor do produto final ao qual ele mesmo produz, essa alienação torna o trabalho estranho, o trabalhador já não é mais capaz de reconhecer o seu próprio valor e se sujeita a toda essa exploração pela pressão de ser algo totalmente substituível, o detentor dos meios de produção sempre deixará claro que se aquele trabalhador estiver insatisfeito terá outro para ocupar seu lugar.

Para Marx o capitalismo pode ser definido como um sistema produtor de mercadorias, sendo assim a mercadoria um dos principais elementos desse sistema, no capítulo em questão ele apresenta a distinção entre o valor de uso e o valor de troca, sendo o primeiro voltado à satisfação das necessidades humanas, ou seja, toda mercadoria resultante do trabalho humano que de fato possui um valor de uso, sendo algo palpável, onde a pessoa realmente construa uma relação de algo físico entre coisas físicas. Já o segundo seria voltado a uma não relação entre a mercadoria produzida pelo trabalho e a sua natureza física e também com as relações materiais.

“Valor” (valor de troca) “é qualidade das coisas, riqueza” (valor de uso) [é qualidade] “do homem. Valor, nesse sentido, implica necessariamente troca, riqueza não. [Riqueza (valor de uso)] é um atributo do homem, valor um atributo das mercadorias. Um homem, ou uma comunidade, é rico; uma pérola, ou um diamante, é valiosa [...]. Uma pérola ou um diamante tem valor como pérola ou diamante.” (MARX, 2011, p. 128)

 

                Reconhecemos assim a dualidade de sentidos de trabalho na obra de Marx (trabalho "em si", enquanto relação entre homem e natureza; e trabalho no modo de produção do capital) e os efeitos da mercadoria, principalmente quanto ao avanço de alienação ao fetichismo que inverte a lógico entre sujeito e predicado: a produção é o sujeito e as relações sociais, o predicado.

A produção generalizada de mercadorias, a unidade mais simples do sistema capitalista, que geram a reificação e o avanço da alienação, invertendo a lógica entre sujeito e predicado; ou seja, transformam a produção em sujeito e as relações sociais em predicado ao passo que permite a acumulação de capital, aumentando o seu poder, promove a perda de controle do trabalhador sobre a produção e sobre o produto do seu trabalho. Esse processo só é possível dada a alienação, uma relação social que, no capitalismo, molda a imagem do trabalho sobre uma contradição entre a produção social/coletiva e a apropriação privada da mercadoria.

Daí a afirmação de que no sistema capitalista, trabalho e mercadoria se relacionam de forma deturpada, pois, ao passo que o trabalho é o modo como o homem se relaciona com a natureza e promove a criação de valor, sendo o centro dos processos produtivos e de sociabilidade, é também alienado, recriando o mundo e as próprias subjetividades através da mercadoria.

 

Referências

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

MARX, Karl. O Capital -  Livro 1. São Paulo: Boitempo, 2011.

 

 

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA


Introdução à Filosofia

AVALIAÇÃO 3

 

INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA

 

QUESTÃO 1.

Acreditar que é porque sempre foi. A maioria das nossas decisões cotidianas é tomada encima dessa crença. Pressupomos uma certa uniformidade geral do meio que nos rodeia. O que aconteceria se abandonássemos este pressuposto? Certamente as conclusões que tiramos sobre o que é e o que será mudariam radicalmente. Veja, não há contradição em supor que, embora a natureza - outra forma de chamar o meio - tenha sido uniforme até o presente momento, ela possa tornar-se caótica e imprevisível.

David Hume afirmou que apesar de supormos que o observado até hoje reforça ou confirma as nossas teorias, tais observações não fornecem de fato uma confirmação. Tendo Hume razão, tanto a teoria de que o sol nascerá amanhã como a de que não nascerá são igualmente possíveis. Esse é o conhecido “problema da indução”.

Nos baseamos corriqueiramente no raciocínio indutivo. Supomos que em virtude de o sol ter nascido todos os dias no passado, ele nascerá amanhã. Porém, até que ponto o passado fornece qualquer espécie de pista para o que acontecerá no futuro?

A forma de argumento mais confiável é a dedutiva. Num argumento dedutivo válido, como debatido nas provas anteriores, premissas verdadeiras implicam uma conclusão verdadeira. Num argumento indutivo, por outro lado, as premissas não fornecem qualquer garantia de que a conclusão é verdadeira: as premissas fornecem indícios de que a conclusão é verdadeira (o sol nasceu nos últimos 100 dias, logo o sol nascerá amanhã). Não há contradição lógica em supor que apesar de o sol ter nascido nos últimos 100 dias observados, amanhã ele possa não nascer.

Baseamo-nos a toda a hora em argumentos indutivos. A maior parte da nossa ciência é feita encima do raciocínio indutivo (não entrarei na questão do falseamento da tese - que evita o problema da indução, apesar de não cobrir todos os casos - por falta de espaço). Construímos teorias que valem, supostamente, em toda a parte e a qualquer tempo, incluindo o futuro. Justificamos as teorias apresentando observações. Contudo, as afirmações acerca do que foi observado não implicam logicamente as afirmações acerca do que acontecerá no futuro. Assim, se queremos justificar estas teorias, não o fazemos através de argumentação dedutiva, mas sim de raciocínio indutivo.

A verdade é que temos tanta razão para supor que o sol não nascerá amanhã, como para acreditar que ele nascerá. Por outro lado, em parte o raciocínio indutivo tem sido bem-sucedido, galgando variadas conquistas como combustível, viagens espaciais, transmissões simultâneas e manipulação genética. Por outro, tem levado a degradação acelerada dos recursos necessários para a vida humana no planeta, o que pode resultar no colapso da uniformidade geral que utilizamos como pressuposto até aqui.

 

 

Teoria Sociológica I - ATIVIDADE II

Teoria Sociológica I  

 

ATIVIDADE II

 

Segundo Durkheim, quais os procedimentos que garantem a objetividade científica? E por que o suicídio é considerado um fato social e não um fato psicológico? Quais as características da tipologia que o autor construiu?

 

Durkheim dedicou boa parte de sua obra a transformar o sociólogo e cientista. Para tal, via-se obrigado a definir um objeto e um método específicos, únicos, particulares da sociologia. Definiu os fatos sociais como os objetos de estudo dessa "nova ciência", os caracterizando como maneiras gerais/coletivas de pensar, agir e sentir externas ao indivíduo, que se impõem de maneira coercitiva. Os fatos sociais são causados apenas por outros fatos sociais e se diferem dos fenômenos psíquicos e orgânicos, objetos de outras ciências (DURKHEIM, 1966). Com essa definição de objeto, o autor buscava dar ares práticos, empíricos, para essa nova ciência.

Explicar a ocorrência de fatos sociais é o objetivo da sociologia enquanto ciência. Porém, para alcançar esse objetivo era preciso que o cientista seguisse regras rigorosas, um método claramente delimitado, a fim de garantir a objetividade científica. Buscando inspiração nas ciências duras/exatas, Durkheim define os pilares dessa forma de explicar como tratar os fatos sociais como coisas (com existência objetiva), externas ao indivíduo, ou seja, tratar os fatos como coisas é observar diante deles uma certa atitude mental coletiva, abandonando as representações que fizemos eventualmente deles ao longo da vida (abandonando a subjetividade, as prenoções, os maniqueísmos e o senso comum):

é de regra, nas ciências naturais, afastar os dados sensíveis que correm o risco de ser demasiado pessoais ao observador, para reter exclusivamente os que apresentam um suficiente grau de objetividade. Eis o que leva o físico a substituir as vagas impressões que a temperatura ou a eletricidade produzem pela representação visual das oscilações do termômetro ou do eletrômetro. O sociólogo deve tomar as mesmas precauções. (DURKHEIM. 1966, 44)

 

Em síntese, quando se procura explicar um fato social, é preciso separar a causa eficiente que o produz e a função que ele cumpre, como - segundo o autor - fazem os físicos, químicos, fisiologistas, quando se lançam numa região ainda inexplorada de seu domínio científico. O autor pregou que os sociólogos têm de focar a atenção em grupos claramente definidos de fatos sociais, e formular hipóteses específicas, empiricamente comprováveis.

A objetividade científica almejada é garantida então pela circunscrição clara dos fatos, a independência de toda filosofia, a objetividade, o carácter esotérico, o silenciamento das paixões e dos preconceitos, estabelecendo relações claras de causalidade que permitem comparações (DURKHEIM, 1966):

Uma investigação científica só pode alcançar seus fins fundamentando-se em fatos comparáveis, e tem tanto mais probabilidade de êxito quanto mais segura está de ser reunido todos os que podem ser utilmente comparados (...) o investigador não pode tomar como objeto de suas pesquisas os grupos de fatos constituídos aos quais correspondem as palavras da língua corrente; ao contrário, está obrigado a constituir por si mesmo os grupos que quer estudar a fim de lhes dar a homogeneidade e a especificidade que lhes são necessários para poderem ser tratados cientificamente. É assim que o botânico, quando fala de flores e frutos, o zoólogo, quando fala de peixes ou insetos, tomam esses diferentes termos em sentidos que deveriam ter sido fixados previamente. (DURKHEIM. 1930 apud CASTRO & DIAS. 1985, 78)

 

A aplicação desse método pode ser encontrada em O Suicídio, onde Durkheim estudou o suicídio para demonstrar, dentro dessa definição particular de ciência, que sobre esse fato social há uma determinação social, externa ao indivíduo. Sua hipótese é que a soma dos suicídios em uma sociedade deve ser tratada como um fato que somente pode ser explicado em sua totalidade pela sociologia, não por motivações pessoais dos atos de autodestruição. Sua unidade de análise é a sociedade e não o indivíduo (DURKHEIM, 1982).

No Livro II, Durkheim expõe a sua tipologia do suicídio, dividida em três tipos: 1) suicídio egoísta, motivado por um isolamento do indivíduo com relação à sociedade, que o transforma em marginalizado, sem laços suficientemente sólidos de solidariedade com o grupo social; 2) suicídio altruísta, o extremo oposto, quando o indivíduo está demasiadamente ligado a sociedade; e 3) suicídio anômico, destilado da noção de anomia, a ausência de normas. O suicida neste caso é aquele indivíduo que não soube aceitar os limites impostos pela sociedade; que aspira a mais do que pode, com demandas muito acima de suas possibilidades reais, e, por não as alcançar, cai no desespero (DURKHEIM, 1982).

Nos três casos trata-se de uma relação entre indivíduo e a sociedade que o levam ao suicídio; ou seja: fenômenos individuais que respondem a causas sociais. Assim sendo, esse ato extremo de aparente individualismo é considerado um fato social e não um fato psicológico, e por esse motivo pode ser objeto da sociologia (DURKHEIM, 1982).

 

Referências

CASTRO, Anna Maria de. & DIAS, Edmundo F. Introdução ao pensamento sociológico. Rio de Janeiro, Eldourado Tijuca, 1985.

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo, Ed. Nacional, 1966.

______. O Suicídio. Rio de Janeiro, Zahar, 1982. (Introdução, Livro II, Cap. I, II e III).

 

Algumas possíveis conexões entre grilagem e alimentação

 

Algumas possíveis conexões entre grilagem e alimentação

 

Francisco Octávio Bittencourt de Sousa

 

Neste breve ensaio para a disciplina Mercado, ética, alimentação e consumo, gostaria de levantar algumas questões sobre as experiências que tive com a alimentação durante a pesquisa de campo que teve por resultado minha monografia. A proposta da monografia foi analisar o processo de grilagem observando os riscos impostos ao patrimônio ambiental e cultural.

Para compreender o motivo pelo qual a grilagem coloca em risco o patrimônio ambiental e cultural brasileiro é preciso observar a área alvo da fraude, analisando o que está sob e sobre a terra: as pessoas, as plantas, os animais, os costumes e saberes locais etc. A disputa pelas terras transcende o questão agrária, constituindo um embate cosmológico (de formas de ver, representar e interagir com o mundo), pois, como nos lembra Antônio Bispo dos Santos (2015, p. 41), com um tom algo romântico/idílico, na

matriz afro-pindorâmica a terra, ao invés de ser amaldiçoada, é uma Deusa e as ervas não são daninhas. Como não existe o pecado, o que há é uma força vital que integra todas as coisas. As pessoas, ao invés de trabalhar, interagem com a natureza e o resultado dessa interação, por advir de relações com deusas e deuses materializados em elementos do universo, se concretizam em condições de vida.

 

O mesmo autor nos lembra da luta secular do povo negro pela manutenção de modos de vida alternativos

É sabido que o povo da África, ao chegar ao Brasil, imediatamente se rebelou contra os colonizadores, deles escapando de várias maneiras: adentrando-se pelas matas virgens, reconstituindo os seus modos de vida em grupos comunitários contra colonizadores, formando comunidades em parceria com os povos nativos, em determinados casos organizados como nômades, outras vezes ocupando um território fixo. Para essas comunidades contra colonizadoras, a terra era (e continua sendo) de uso comum e o que nela se produzia era utilizado em benefício de todas as pessoas, de acordo com as necessidades de cada um, só sendo permitida a acumulação em prol da coletividade para abastecer os períodos de escassez provocados por irregularidades climáticas, guerras ou os longos períodos de festividades. (SANTOS, 2015, p.48)

 

A minha ideia para esse texto não segue exatamente um método: apenas peguei anotações que fiz durante as aulas da disciplina e as associei com fatos que vivenciei durante a pesquisa de campo, de forma direta e sem subdivisões. Se as interpretações não forem as mais originais possíveis, ao menos poderão se tornar notas de rodapé em edições futuras da monografia.

Me baseei principalmente em Lynne Phillips (2006) e Pierre Bourdieu (2007) para pensar a alimentação e os hábitos alimentares como marcadores de diferença social. Há também uma breve menção a DaMatta (s/d), onde reflito sobre as visões de natureza que identifiquei em campo. Não prometo muito, torço apenas para que a leitura seja proveitosa.

Na primeira vez que fui a campo, em setembro de 2021, terminava todas as entrevistas que fazia com a seguinte pergunta: “qual a primeira necessidade dos Kalunga nesse momento?”. Em todas as entrevistas, resultado que eu não esperava, a resposta era variações de regularização fundiária (desde "ajeitar os papéis da terra" até "pressionar o poder público para titular todo o território").

Esse fato me chamou especial atenção porque até as pessoas mais simples - como a Dona Antonia, que não tinham energia ou água encanada - colocaram como primeira necessidade a regularização fundiária. Me lembrei em especial das discussões nas aulas de Sociedades Camponesas a partir da leitura de Chayanov (1976), sobre como os parâmetros ocidentais não são aplicáveis para comunidades rurais.

Eu esperava respostas como "energia", "água encanada" ou "esgoto". Talvez casas de tijolos. Mas a primeira necessidade apontada por todos os entrevistados eram os papéis da terra. Essa pergunta tornava imperativo questionar quais os efeitos da grilagem e das invasões no dia a dia?

O resumo foi dado por um depoimento riquíssimo de uma das lideranças comunitárias mais combativas entre os quilombolas: Damião. Para responder à pergunta ele fez um comparativo entre a liberdade dos fazendeiros e a liberdade dos Kalunga. Enquanto os primeiros almejam continuar expandindo suas terras para plantar soja, a liberdade para os Kalunga estava na possibilidade de mobilidade dentro do território: o gado é criado solto, para que possa escolher a área que lhe forneça melhor nutrição, bem como as famílias, que - pela ausência de cercas - podem buscar o melhor lugar para abrir suas roças e, no limite, se mudar para uma nova área quando a atual já não lhe é suficiente.

Me lembrei especialmente de Otávio Velho, em Capitalismo autoritário e campesinato (2009), quando afirma que a divisão territorial simbólica é preservada e permite que todos tenham abundância de víveres. O direito de ir e vir, o uso das águas, caçar e pescar não se proíbe a ninguém. A vida flui entre núcleos familiares, a propriedade em grupo. O trabalho em grupo propicia uma convivência que nada tem a ver com o individualismo e a solidão do Homo-urbi.

Souza (2018) pontua que é justamente a diversidade e a transformação dos  sistemas de cultivo de roça de toco, ou seja, do modo de produção e a agrobiodiversidade local que garantiram o sustento alimentar de muitas famílias Kalunga durante as invasões das terras por fazendeiros, o que já demonstra a dimensão do conflito cosmológico citado anteriormente.

Em sua dissertação, o primeiro capítulo é voltado para a grilagem, localizando indiretamente diversos elementos da rede de solidariedade e suborno: os frequentes episódios por eles enfrentados eram desde invasões de suas terras por novos personagens, roças e casas ora queimadas e ou derrubadas por tratores e visitas constantes de policiais com mandados judiciais expedidos por delegados e outras autoridades do poder público local (p.27); criando um ambiente que incentiva a reprodução dos modos de produção ocidentais, com o uso intensivo das paisagens vegetais e de agroquímicos. Não fosse esse modo de vida e de produção local, a batalha contra o latifúndio já estaria perdida.

Me lembrei especialmente da dualidade entre padronização e especificação de que tratou Phillips (2006), transcendendo a análise a nível local para global, em meio ao processo de globalização. Enquanto a padronização de plantas, práticas de cultivo e colheita, formas de embalar, etc. são alguns dos resultados desse processo, vê-se gradativamente a destruição da base alimentar doméstica, perda da diversidade de plantas, aumento da insegurança alimentar, etc. e, nesse estudo de caso, até mesmo a continuidade da grilagem, ampliando as redes de solidariedade que possibilitam essa fraude.

O modo de cultivo local são os conhecidos roçados, ou roças de toco, em que cultivam por 4 a 5 anos. Após este período esperam a regeneração da vegetação por aproximadamente dez anos, quando voltam a plantar. E assim vão cultivando arroz, milho, feijão, gergelim e mandioca da qual sempre fizeram farinha. A maior parte da produção é para o consumo próprio, sendo que a farinha de mandioca é um produto tradicional das famílias, cujos excedentes são comercializados nas cidades da região com o selo de produto Kalunga, extraído localmente.

Aqui se aciona a outra face da dualidade de Phillips (2006), a especificação como plataforma de sucesso para empreendimentos com relacionado à "habilidade de se tornar local”, agregando valor simbólico aos produtos que se tornam mais atrativos para turistas ou apoiadores das causas ligadas à comunidade.

Os pratos, característicos da culinária sertaneja e goiana, são baseados na dupla feijão com arroz. Os principais ingredientes são o arroz, o feijão, a abóbora, o quiabo, o maxixe, jiló e a mandioca. Entretanto, alguns produtos industrializados vêm ganhando força dentro dessa refeição, como é o caso do macarrão e o do óleo de soja, substituto barato e prático da banha e dos óleos artesanais, retornando a tendência padronizadora.

O rebanho bovino e os equinos pastam nas pastagens naturais do cerrado e em várzeas nas margens dos córregos e rios, utilizando toda a área como pastagem nativa, questão vinculada por vezes à ideia de liberdade para os entrevistados. A carne vermelha nem sempre está presente nas mesas da comunidade, servindo como marcador de diferença como tentarei expor a seguir (PHILLIPS, 2006; BOURDIEU, 2007).

Quando visitei o território pela primeira vez, houve certa preocupação com onde a equipe iria comer, pois com a baixa turística decorrente da pandemia, a maioria dos restaurantes estavam fechados. Fomos informados de que seria preciso levar mantimentos, principalmente carne, mas não encontramos carne-seca (a única que aguentaria a viagem) de última hora. O que resultou em comida farta por onde passamos, mas nem sempre com carne no prato.

Na segunda visita, Durval e eu acabamos perdidos no território no começo da noite. Por sorte encontramos dois rapazes de moto na estrada que nos mostraram o caminho para Seu Naboa, era noite do terço de São Simão. As panelas enormes fumegando e a música reproduzida em uma caixa de som ligada a um gerador entregavam o festejo que estava começando. 

Nessa ocasião havia vários tipos de carne (boi, porco, galinha, peixe). Inclusive, até mesmo no café da manhã seguinte, comemos farofa de porco, sobra da noite anterior. A questão é que por vezes é preciso abrir mão dos conceitos que carregamos do nosso cotidiano para uma experiência como essa.

Em setembro de 2021 eu estava auxiliando um grupo da UnB Cerrado a escrever um projeto de extensão para a comunidade. A certa altura no texto coletivo editado dentro do Google Docs encontrei uma passagem que falava sobre a “carência alimentar da comunidade” ou algo que o valha. Isso demonstrava que não havia ali a compreensão de que o regime alimentar da comunidade é diferente do nosso, e, por consequência, a ideia de fartura ou carência mudam.

Veja que quando entendemos a comida como um marcador de diferença, passamos a contribuir com a compreender dentro de diferentes contextos etnográficos noções de gênero, etnia, raça, idade etc. que por vezes excluem sistematicamente englobam pessoas em visões de mundo que não lhe são próprias. O que me parece claro, principalmente nesse último caso do colega da UnB, é que uma forma própria de consumir está predisposta a desempenhar uma função social de legitimação das diferenças sociais.

De certa forma, discorrer sobre a alimentação Kalunga nos possibilidade pensar como toda a área da Fazenda Bonito (onde realizei meu estudo) é usada integralmente pelo modo de vida da comunidade; as áreas que não são cultivadas servem de pastagem para o gado e podem vir a abrigar uma família que considere que sua morada atual já não provê o necessário, o que retoma a dinâmica do local sagrado da qual falei a alguns parágrafos.

Falar do gado Kalunga, Curraleiro, requer um estudo à parte, pois há uma história conjunta de desenvolvimento e adaptação posta em risco pela modernização do campo no final do século XX e invasões no começo do XXI, inserindo novas espécies no território. Os nomes de algumas das comunidades evidenciam a participação histórica da atividade pecuária na região, por exemplo: Curral da Taboca, Fazenda Sucuri, Boa Sorte e Saco Grande, entre outras. Em linhas gerais, o gado Curraleiro apresenta baixa exigência nutricional e a capacidade de pastejar plantas nativas, sendo criado na solta por já estar adaptado às condições naturais do Cerrado (AURÉLIO NETO, 2016).

Dessa forma, a pecuária tradicional com gado Curraleiro não exige a derrubada de extensas matas para a formação de pastagens plantadas, contribuindo para a permanência de povos Kalunga na área rural, com a prática de uma atividade sustentável.

De acordo com Aurélio Neto (2016), esse tipo de criação contribui para uma pecuária sustentável e para a exploração econômica de pastagens naturais, em áreas desfavoráveis à criação de gado zebuíno, fornecendo ao trabalhador rural carne, leite e animais de trabalho, sem necessidade de grandes investimentos na infraestrutura da propriedade. Criar na solta não pressupõe ausência de cuidado ou preguiça (tanto é que não abrange outras criações), mas constitui uma escolha da comunidade, diante das exigências do meio que ocupam.

Novamente, os modos de vida e produção estão intimamente ligados a formulações políticas que, historicamente, tendem a excluir sistematicamente uma série de pessoas por não se enquadrarem dentro da pequena esfera do que se entendia/entende como progresso. Por séculos a criação “na solta” foi associada a preguiça e despreparo dos praticantes, quando, na realidade, era e continua sendo expressão de um modo alternativo de se relacionar com o meio.

Vê-se aqui como diferentes agentes apreendem os objetos ofertados simbolicamente através dos esquemas de percepção e de apreciação de seus habitus. Por isso, é de suma importância deixar claro que cada agente confere sentidos e significados distintos a suas práticas (BOURDIEU, 2007). Quando disse, na primeira citação deste texto, que Antônio Bispo estava sendo algo romântico, não se tratava de uma crítica, mas da delimitação de um determinado discurso politicamente mobilizado.

No limite, o que temos aqui são diferentes visões da natureza (DAMATTA, S/D). Não é raro encontrar afirmações que vinculam comunidades tradicionais a um comportamento sempre harmônico com o meio ambiente, e muitos pesquisadores se chocam ao conhecer a realidade contraditória dos supostos “guardiões da natureza”.

Na minha primeira incursão a campo, acompanhado de uma das lideranças locais da comunidade, Adriano Paulino, vários moradores perguntavam quando chegaria o trator para preparar as áreas de cultivo. A persistência daquele tema em várias paradas da viagem me indignou. Perguntei a Adriano se a AQK não tinha tratores e ele respondeu que não, que aguardavam o da prefeitura ou de um projeto financiado pela companhia elétrica.

Perguntei se a AQK não teria interesse em adquirir tratores para responder a demanda com mais facilidade, até propus que escrevêssemos um projeto de financiamento para aquisição das máquinas e o que ouvi foi surpreendente. Com a visão que só uma liderança local consegue alcançar, Adriano respondeu algo do tipo: “Interesse tem, mas eu não vou escrever esse projeto com você, não quero ser o responsável por acabar com o pouco que resta de cerrado conservado no país. O dia que a AQK tiver um trator, não vai restar um palmo de terra coberta por essa mata que você está vendo”.

Depois de refletir sobre essa fala de Adriano, conhecendo o regimento interno da associação, percebi que a comunidade instrumentalizou a conservação da vegetação nativa prevendo a proibição do uso de máquinas para abertura de roças com área superior a 2,5 hectares por família e determinando que é obrigatória a rotação de cultura em roçados abertos mecanicamente.

Incorporaram à conservação inerente do modo de vida alternativo desenvolvido ali ao discurso ambientalista como ativo de valor, que veio a permitir, por exemplo, o reconhecimento como TICCA, o fortalecimento do turismo etc. A manutenção das práticas agrícolas desempenhadas basicamente pelo trabalho braçal, que requerem a adoção de um baixo ou nenhum nível tecnológico, onde não há aplicações de capital para manejo foi uma escolha da comunidade, que vive bem, com fartura (que tem um significado próprio diferente do que nós, ocidentais, atribuímos a essa palavra).

Na segunda visita ao território, depois de algumas apresentações de uma ONG que visa replantar árvores, ouvi que os Kalunga não queriam plantar “pau”, queriam plantar arroz, milho etc. Há aqui o choque, sintetizado por Foladori e Taks (2004), entre a falsa identificação romântica e politicamente mobilizada das práticas econômicas e rituais de grupos detentores de tecnologias de baixo impacto ambiental, de um lado, e as técnicas aparentemente similares descritas pelos modernos teóricos da agroecologia, de outro. Querer ensinar o Kalunga a conservar a natureza  é como querer ensinar o padre a rezar a missa; não fosse o modo de vida local, não haveria tantas áreas conservadas. 

Temos o dever de aprender com o que Antônio Bispo dos Santos (2015, p.90) caracteriza como “relação respeitosa, orgânica e biointerativa com todos os elementos vitais, uma das principais chaves para compreensão de questões que interessam a todas e a todos. Pois sem a terra, a água, o ar e o fogo não haverá condições sequer para pensarmos em outros meios”.

 

Referências

AURÉLIO NETO, O. A pecuária tradicional como forma de (re)existir no campo: o gado Curraleiro no Território Quilombola Kalunga, na região nordeste de Goiás. Élisée - Revista de Geografia da UEG, v. 5, n. 1, p. 57-77, 11.

 

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2007.

 

CHAYANOV, A. V. 1976. “Teoria dos Sistemas Econômicos Não-Capitalistas”. In: Análise Social, ano XII, n. 46, Lisboa: Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

 

CONAQ; Terra de Direitos. Racismo e violência contra quilombos no Brasil. S/D. Disponível em: https://terradedireitos.org.br/acervo/publicacoes/livros/42/racismo-e-violencia-contra-quilombos-no-brasil/22928. Acesso em fevereiro de 2022.

 

DAMATTA, Roberto. Impacto da herança cultural brasileira nas atitudes para com a natureza e o meio ambiente. Rio +10. MMA.

 

DIAS, Vercilene Francisco. TERRA VERSUS TERRITÓRIO: uma análise jurídica dos conflitos agrários internos na comunidade quilombola kalunga de goiás. 2019. 132 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Direito, Faculdade de Direito, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2019.

 

FOLADORI, Guillermo & TAKS, Javier. UM OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE A QUESTÃO AMBIENTAL. MANA 10(2):323-348, 2004.

 

PHILLIPS, Lynne. Food and globalization. Annual Review of Anthropology. Vol. 35: 37-57. 2006.

 

SANTOS, Antônio Bispo dos. COLONIZAÇÃO, QUILOMBOS: modos e significados. Brasília: INCT. 2015.

 

SOUZA, LOURIVALDO DOS SANTOS. Transformações do sistema agrícola da Comunidade Quilombola Kalunga do Mimoso (Tocantins): a agricultura de corte e queima em questão. Brasília, DF, 2018.

 

VELHO, Otávio Guilherme. (2009). Capitalismo autoritário e campesinato: um estudo comparativo a partir da fronteira em movimento [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2009. 243 p. ISBN: 978- 85-99662-92-2. Disponível em <https://static.scielo.org/scielobooks/p8pr7/pdf/velho-9788599662922.pdf>. Consultado em 20/03/2021.

 

LÓGICA


Introdução à Filosofia

AVALIAÇÃO 2


LÓGICA

 

QUESTÃO 1.

Ao longo dessa segunda etapa de curso, vimos que a lógica pode ser estudada seguindo dois caminhos: a formal e a informal. A lógica formal é o estudo das formas de argumento, de modelos abstratos comuns a muitos argumentos distintos, da linguagem padrão. Estudar a forma em si, em vez dos argumentos específicos, nos permite fazer generalizações.

A lógica informal é o estudo de argumentos particulares, em linguagem natural, e de seus contextos particulares. Está concentrada numa análise prática de argumentos. Os dois caminhos não são opostos, são complementares. Vejamos primeiro uma análise informal.

Embora um argumento possa ter muitos objetivos, o seu principal é demonstrar que uma conclusão é provável ou verdadeira. Assim, os argumentos podem ser bons ou ruins, na medida em que eles realizam ou não esse propósito.

A premissa "todos os alpinistas são corajosos" certamente é falsa, logo, o argumento não estabelece que Edmundo é um alpinista; o que não significa que a conclusão é falsa, mas que o argumento não é útil para determinar sua veracidade.

Mesmo considerando "todos os alpinistas são corajosos" como verdade, não é difícil perceber que se trata também de um argumento com forma inválida, por possuir premissas verdadeiras e uma conclusão falsa. Vejamos:

 

Edmund é corajoso.

Todo os alpinistas são corajosos.

Logo, Edmund é alpinista.

 

Analisando as sentenças com cuidado, percebemos que as relações estruturais não se dão entre sentenças, mas entre os elementos que compõem as sentenças (Edmund, corajoso, alpinista). Assim, simbolizando Edmund por E, corajoso por C, alpinista por A, temos:

 

E é C

Todo A é C

Logo, E é A

 

Substituindo E pelo nome de algum elemento; e A e C por totalidades de objetos, temos algo como:

 

Gorila é peludo

Todo cachorro é peludo

Logo, gorila é cachorro

 

Assim, comprova-se que o argumento e sua forma são inválidos. Apesar das premissas verdadeiras, a conclusão final é falsa. Essa demonstração reforça a tese do segundo paragrafo da citação, onde lemos que a validade é uma questão de lógica e existem variadas técnicas para identificar a validade de um argumento, a exemplo da técnica de substituição aplicada aqui.

 

 

METAFÍSICA


Introdução à Filosofia

AVALIAÇÃO 1

 

METAFÍSICA

 

QUESTÃO 1.

A primeira questão da avaliação já é um desafio, pois falar do nada nunca é fácil, posto que o nada está fora da esfera do ser e todas as respostas para as perguntas sobre ele levam ao contrário dessa afirmação, por exemplo a pergunta do segundo parágrafo da citação "Que é o nada?": se respondo "o nada é algo" acabei de atribuir-lhe uma propriedade trazendo-o para a esfera da existência; se respondo "o nada não é algo" atribui uma característica por oposição (até porque não ser algo pode ser visto também como uma propriedade). Com essa abordagem chegamos à mesma conclusão que Heidegger: toda resposta para essa questão é impossível. Mas, aqui reside uma dualidade entre ser e não ser/entre existência e não existência, que - se não verticalizada - deixa escapar os diversos níveis de existência ou não existência dos objetos (existência concreta, como a do monitor na qual você lê essas palavras; existência fluida/ficcional, como a de Bentinho e Capitu; e a inexistência). E, depois das discussões que tivemos, me parece que encontrar algo que não exista totalmente é uma tarefa impossível, posto que é possível atribuir propriedades até mesmo a objetos inexistentes, como a propriedade de divisibilidade do maior número natural por um número n.

 

QUESTÃO 2.

Na questão anterior, vimos que há diferentes níveis/categorias de existência dos objetos; da mesma forma, há diferentes níveis de verdade nas proposições. Aqui nos debruçamos especificamente sobre as verdades necessárias (é sempre verdade em todas as realidades possíveis, sendo impossível o seu oposto) e as verdades contingentes (é verdade às vezes, e o oposto é possível). Importante destacar que desde o século XVII, com a percepção aflorada da finitude humana, a ideia de necessidade associada a realidade perde força, sendo a contingência a única via de acesso ao real (uma afirmação é, em determinado recorte do espaço tempo, verdadeira, mas pode vir a ser ou já foi falsa). Ou seja, é simples encontrar verdades matemáticas, lógicas, físicas, químicas etc. necessárias; mas duvido da existência de uma verdade metafísica necessária. A principal diferença entre essas duas categorias encontra-se na dinâmica/mudança/aceitação ou não da alteração do valor de verdade associado (verdades necessárias não aceitam qualquer alteração; verdades contingentes aceitam, e é justamente essa dinâmica que garante o caráter de contingência de uma proposição).

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