segunda-feira, 28 de outubro de 2019

A escola de antropologia estadunidense


II RESUMO – TEORIA ANTROPOLÓGICA I

Apesar de ainda presente no discurso público, o evolucionismo enquanto eixo antropológico foi a muito refutado. Alguns dos estudiosos mais importantes para a queda do evolucionismo na academia foram Franz Boas e seus alunos, nomeados posteriormente como “culturalistas”. Mas quem eram os culturalistas e quais eram as ideias da escola boaziana?
Esse texto tem por objetivo apresentar Franz Boas e alguns de seus alunos de destaque, em um primeiro momento elencando as novas ideais que trouxeram para a antropologia; em um segundo momento demonstrando as fragilidades dessa nova escola de pensamento; e concluindo com o legado de Boas e dos boazianos para as ciências sociais.
Hoje conhecido como o “pai da antropologia americana”, Franz Boas nasceu na metade do século XIX na Alemanha e foi aluno de Lewis Henry Morgan, um dos principais evolucionistas. Talvez seu local de nascimento, que passou por uma virada humanista, em que o compreender passou a ter mais valor que o explicar, tenha influenciado no projeto acadêmico em que Boas se debruçou. Com o estudo e um posicionamento político forte contra o pensamento eugênico-determinista, Franz Boas formulou diversas críticas a escola de Morgan, atacando o pilar de qualquer ciência: seu método.
Para o alemão, o método comparativo dos evolucionistas era extremamente generalizante, pois assumia que o mesmo fenômeno etnológico se desenvolvia em todos os lugares da mesma maneira, retirando fatos de seu contexto para legitimar o conhecimento antropológico produzido. Em resposta a esse método, Franz Boas propõe algo novo: o método histórico. Esse coloca o valor da antropologia no estudo dos processos, na totalidade, e não no resultado isolado, retirado do contexto e do processo histórico. Dessa forma, a ideia de uma história única e um tempo único são negadas, passam a ser ditados pela cultura de cada povo, que é analisado a fundo, mas num espaço geográfico definido. Daqui partiram algumas críticas a escola boaziana.
Ainda na crítica elaborada por Franz Boas ao evolucionismo consta o papel do antropólogo, que deve estar limitado a pesquisas sobre as leis gerais de formação do pensamento e a supremacia da cultura no comportamento humano, contraponto os determinismos do pensamento eugênico.  Outro ponto relevante é que, apesar de não ter escrito sobre, Boas promoveu a pesquisa de campo intensiva em áreas culturais delimitadas, formando uma legião de orientandos, que pesquisaram diversas partes do mundo.
Alfred Louis Kroeber é um dos primeiros alunos de Franz Boas. Seu debate se centra na oposição dos determinantes biológicos, elaborando uma ideia de cultura atrelada ao superorgânico[1]. Kroeber busca diferenciar o humano do animal a partir da presença de civilização ou instinto, afirmando que os homens não agem como os animais, pois, apesar do reconhecimento dado aos processos orgânicos[2], esses estão separados dos processos culturais[3].
Ruth Benedict é outra orientanda de Boas que merece destaque. Com a agenda anti-eugência[4], Benedict reforça muito das ideias de seu orientador quanto a observação da totalidade, o relativismo cultural, a moldagem do indivíduo pela cultura e a particularidade do tempo de cultura para cultura. A autora vai desenvolver um conceito caro a antropologia até os dias de hoje: ethos. Esse conceito está ligado a totalidade dos grupos culturais isolados, os padrões coerentes que se formam e a hegemonia dentro de determinada cultura.
Também orientanda de Franz Boas, Margaret Mead, atendendo aos anseios de uma parte da sociedade, escreveu sobre o temperamento dos indivíduos e o condicionamento social dependente do sexo. Seu trabalho foi um soco no estomago para muitas pessoas, pois desmistificou o pensamento de condicionantes a partir do órgão genital, o vinculando ao reconhecimento dado ao indivíduo por cada sociedade. Um dos conceitos de Mead que reverbera até hoje é o de indivíduo inadaptado: destinado a sofrer pela não identificação com o pensamento hegemônico, esses indivíduos fogem do padrão que é esperado deles pela sociedade.
Apesar de dar o pontapé inicial contra os evolucionistas, os boazianos e o próprio Franz Boas apresentam problemas aos olhos da antropologia contemporânea. Existirem questões pontuais sobre cada autor –como o fato de Benedict ter realizado pesquisas no Japão por encomenda do governo estadunidense ou a tutela de Kroeber sobre Ishi[5]– o foco de quem escreve é apresentar os pontos de crítica da escola como um todo, sendo os principais: (1) a dualidade primitivo e moderno em que estavam imersos e acabava por retirar, nos estudos, a agência dos ditos “primitivos”; (2) a limitação imposta pelo ethos, que acabou por criar uma ideia de purismo e finitude –inexistente– e, mais tarde, a noção de aculturação[6]; e (3) a incapacidade de lidar com a quebra da hegemonia.
Alguns desses pontos de fragilidade são apontados pelos próprios boazinos. Quando Ruth Landes escolhe observar uma “cidade das mulheres” não como inadaptado, mas como agência feminina, ela rompe com a lógica da finitude dos povos, pois, em um ethos branco-patriarcal no Brasil de Vargas, a cidade das mulheres é um ponto de resistência e renascimento de uma cultura que teria sido esmagada pela “civilização”.
Nessa linha de observar o renascimento e a resistência dos povos a violência do processo colonial, Zora Hurston enxerga no povo negro uma capacidade de adaptação incrível e independente do estado. Esse seu espectro político liberal acabou por fazer com que essa autora fosse apagada da antropologia durante sua vida, sendo resgatada anos mais tarde por vertentes feministas do movimento negro estadunidense.
Por fim, talvez o aluno de F. Boas mais radical na crítica aos boazianos, Edward Sapir aponta todos os pontos de fragilidade já citados nesse texto e propõe que a cultura é uma criação do antropólogo, afirmação que vai se tornar mais popular no pós-modernismo da década de 60-70. Para o linguista, o indivíduo não é passivo e a cultura não é impessoal. É a rede de relações e a interação de sistemas de ideias que molda a cultura, afirmando assim a importância da base humana na antropologia. Não existem “ethos” nem “inadaptado”, o que Sapir observa são as diferentes formas de interpretações, as variadas reações a cultura.
Unindo esses três autores, dissonantes, é passível de afirmação que, mesmo se mantendo presos a dualidade primitivo-moderno, com o trabalho de campo levado a exaustão era possível observar a potência e a agência dos chamados “primitivos”. Talvez os três tenham sido os que mais respeitaram a proposta de F. Boas para a antropologia: uma observação densa do processo histórico que formou os povos. Mas quando se realiza essa observação densa, é impossível ignorar a força resiliente dos povos.
Mesmo com essas brechas para críticas aos culturalistas, a escola de Franz Boas deixou como legado os primeiros passos quanto a superação dos preconceitos e antagonismos étnicos, tão presentes nos discursos tanto leigos quanto políticos de hoje. Talvez falte a quem nos governa e aos que o elegeram algumas páginas de Antropologia Cultural (2004), ou falte aos antropólogos um ímpeto um pouco mais ativista, agindo na base, como o de Boas e de seus alunos.

REFERÊNCIAS
Anotações feitas em sala de aula no ano de 2019 durante as aulas de Introdução a Antropologia e Teoria Antropologia, ministradas respectivamente por Dra. Giovana Acácia Tempesta e Dra. Silvia Maria Ferreira Guimarães.

BOAS, Franz. 2004. Antropologia Cultural, Celso Castro (org.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

BOAS, Franz. 2010. A mente do ser humano primitivo. Petrópolis, Editora Vozes.

KROEBER, Alfred L. 1917. A natureza a Cultura. Lisboa, Edições 70, 1993.

BENEDICT, Ruth. 2013. Padrões de cultura.  Petrópolis, Editora Vozes.

MEAD, Margaret. 2015. Cultura e Personalidade, Celso Castro (org.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

MEAD, Margaret. 1969. Sexo e Temperamento. São Paulo: Perspectiva.

SAPIR, Edward. 2015. Cultura e Personalidade, Celso Castro (org.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

LANDES, Ruth. 2002. A cidade das mulheres. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ.

HURSTON, Zora N. 2002. Seus olhos viam Deus. Rio de Janeiro: Record.



[1] em síntese significa acima do orgânico/biológico
[2] em especial, a seleção natural
[3] que são cumulativos, ligados a experiência adquirida
[4] comum a todos os membros da escola boaziana
[5] último sobrevivente dos Yashi
[6] perda substancial ou total da cultura dita primitiva quando em contato com outras culturas

Tráfico Atlântico de escravizados, nova história indígena, dinâmica de mestiçagem


I PROVA DE HSPB
Observação: Se recomenda a leitura das questões II e V em conjunto, pois são complementares. Todos os textos foram escritos a partir das anotações do autor realizadas em sala de aula entre agosto e outubro de 2019.
QUESTÃO II
A escravidão não foi novidade nem nas Américas, muito menos na Europa ou na África. Os portugueses já aplicavam o trabalho escravo em localidades como a Ilha da Madeira para a produção do açúcar. A África já conhecia a escravidão tanto ritualista como por guerra ou dívida. Então qual a novidade?
O Tráfico Atlântico de escravizados. O oceano, antes obstáculo, passou a ser um corredor direto. Não se conta uma história do Brasil separada de uma história da África pela robustez conquistada pelo Tráfico Atlântico bilateral entre esses dois locais. Mais de 12 milhões de pessoas deixaram o continente africano compulsoriamente entre os séculos XVII e XIX. O Brasil foi o maior importador de escravos do mundo, a economia brasileira seria inviável sem os acorrentados, e daqui surge um dos principais gatilhos do tráfico atlântico: a economia (FLORENTINO, 2015).
Uma demanda externa movia o comércio de pessoas. Demanda com proporções tão elevadas que modificou os cativeiros africanos, criando estados voltados para a captura e venda de escravizados, em aliança com os portugueses, alianças para guerra e comércio, numa lógica de reprodução social de cativos com protagonismo português e de elites guerreiras africanas. Essa lógica de reprodução social de cativos promoveu um despovoamento africano que tem consequência até a atualidade (MATTOS, 2010).
A escravidão não foi motivo de estranhamento para as pessoas da época, pelo contrário, era uma pratica aceita e popular. Para os portugueses, além de ser uma boa alternativa para o trabalho braçal, estava ligada também a purificação religiosa, transcendendo a barreira da cor. É esse o outro gatilho principal do tráfico: a catequização católica. Essa se dava por meio do trabalho ou da guerra justa (MATTOS, 2010). 


REFERÊNCIAS
FLORENTINO, Manolo. Aspectos do tráfico negreiro na África Ocidental (c.1500-c.1800). IN.: FRAGOSO, João & GOUVÊA, Maria de Fátima (orgs.). O Brasil colonial. Vol. 1. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015, p. 229-268.

MATTOS, Hebe Maria. A escravidão moderna nos quadros do Império português: o Antigo Regime em perspectiva atlântica. IN.: FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda Baptista & GOUVÊA, Maria de Fátima (orgs.). O antigo regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p. 142-162.

QUESTÃO III
“[...] Os Indios, que tem commum com os Africanos o serem selvagens e indomitos, regem-se todos pelos mesmos instinctos, paramente animaes, e por nenhuns outros. Vão lá pregar-lhes as excellencias do trabalho, vão lá dizer-lhes que Deus poz o trabalho como sentinella á virtude, que isso é o mesmo que bradar no deserto ou falar ás paredes, ou menos ainda, porque, segundo dizem, as paredes tem ouvidos......[...]” (VARNHAGEN & LISBOA, 1867, p. 12).
O trecho acima reflete o pensamento de Francisco Adolfo de Varnhagen, autor da "Historia Geral do Brazil". Por muito tempo as histórias do Brasil tentaram apagar as imagens tanto dos indígenas quanto dos negros. Ainda hoje o índio é visto como extinto e o negro como simples vítima do passado escravista, retirando desses sujeitos a sua autonomia histórica.  Essa leitura, compartilhada por muitos, passou a ser objeto de crítica nos anos 80, a partir da agenda das identidades, provocando inquietude nas ciências humanas. A universidade tentou e tenta até hoje responder essa inquietude, dentro dos seus limites. O próprio poder legislativo tentou responder essas questões com leis que obrigam o ensino de África e questões indígenas no ensino básico.
Não foi o aparecimento de novas fontes que revolucionou a história indígena, mas sim novas perguntas. Por que chamamos de “índios”? O próprio termo “índio” foi uma tentativa de apagar a história de inúmeros povos que habitavam o território da colônia portuguesa, não diferenciando as mais diferentes nações nativas. Todavia, os “índios”, especialistas em sobrevivência, adotaram o termo “índio” como forma de unir diferentes etnias para resistir a realidade colonial.
Em 1500, ao chegarem na costa do que hoje conhecemos por Brasil, os portugueses se depararam com a mata de pé e julgaram previamente o povo costeiro como “selvagens não-civilizados”, porque civilização significava, entre outras coisas, domínio sobre a natureza, ou seja, não havia espaço para mato alto na civilização. Entretanto, os nativos não tinham essa consciência e não se entendiam como preservacionistas. Muitos dos nativos da costa não tinham um ideal que hoje consideraríamos sustentável. Não foi só espelho e cachaça os alvos de escambo entre europeus e indígenas, mas também armas de fogo e instrumentos metálicos, o que dinamizou a vida dos nativos não só na produção, mas na caça e na guerra entre diferentes povos.
Dado um panorama geral, hoje na antropologia e na história há uma proposta de garantir visibilidade a populações que foram apagadas da história nacional. É nessa linha que J. Pacheco Oliveira afirma que a colonização foi feita com o índio, em uma relação de aprendizado mútuo, tanto que o primeiro contato europeu-ameríndio foi amistoso. E foi importante ter sido amistoso, afinal o sentido colonial não era só comercial, mas também religioso. A Igreja Católica e os correspondentes portugueses viam na colônia a possibilidade de um imenso contingente católico (OLIVEIRA, 2016).
É do mesmo autor, a divisão da colonização em três situações históricas: (1°) Regime de Feitorias, marcado pelo equilíbrio de forças e por uma parceria nativo-europeia; (2°) Guerra de Conquista, marcada pelo desiquilíbrio de forças, pelos conflitos entre portugueses, indígenas e franceses e pela divisão da colônia nas Capitanias Hereditárias; (3°) Economia Açucareira, nesse período o indígena teve de optar pela espada ou pela cruz, passando a ser caçado (e a caçar) pelos colonos e pela relação com a religiosidade (OLIVEIRA, 2015).
Veja bem, o indígena nunca esteve sem opção: no primeiro período o escambo era útil para conseguir ferramentas e armas; no segunda os nativos podiam se aliar uns aos outros, permanecerem neutros ou se aliarem aos europeus, a depender da conveniência; no terceiro momento, apesar da situação se tornar opressora, o nativo subverte a própria colonização ora lutando contra colonos e assassinando missionários, ora se aliando aos missionários para evitar uma aniquilação.
É de suma importância observar essas relações complexas dos povos nativos para romper com a ideia que ainda existe de que o índio carece de uma tutela ou de que são “paramente[1] animaes”. São inúmeros povos, com incontáveis anseios e com meios próprios para conquista-los, negar essa afirmação é ignorar todo um processo histórico e retornar à mentalidade que vigorou entre os séculos XVI e XIX, é reafirmar o discurso medonho do autor da "Historia Geral do Brazil".

REFERENCIAS
OLIVEIRA, João Pacheco de. Os indígenas na fundação da colônia: uma abordagem crítica. IN.: FRAGOSO, João & GOUVÊA, Maria de Fátima (orgs.). O Brasil colonial. Vol. 1. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015, p. 167-228.

OLIVEIRA, João Pacheco de. O nascimento do Brasil: revisão de um paradigma historiográfico. IN.: ________. O nascimento do Brasil e outros ensaios: “pacificação”, regime tutelar e formação de alteridades. Rio de Janeiro: Contracapa, 2016, p. 44-74.

VARNHAGEN, Francisco Adolfo de; LISBOA, João Francisco. Os Indios bravos e o Sr. Lisboa, Timon 3º. pelo autor da "Historia Geral do Brazil" (F. A. de V.) Em parte gora de novo reimpresa. 1867. Disponível em: <http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_obrasraras/or1466183/or1466183.pdf>. Acesso em: 12 out. 2019.

QUESTÃO V
Em 2011 a Caixa Econômica Federal colocou no ar uma propaganda com o escritor brasileiro Machado de Assis, todavia o ator escolhido para representar o escritor era branco. Após reclamações, o comercial foi retirado de circulação com um pedido de desculpas (G1, 2011).
Em outubro de 2018 o atual vice-presidente da república general Hamilton Mourão (PRTB) deu a seguinte declaração no aeroporto de Brasília: "Meu neto é um cara bonito, viu ali. Branqueamento da raça". Dias depois, após de muita crítica, H. Mourão afirmou que foi “um idiota” (DOCA, 2018).
Abril de 2019, o presidente da república Jair Messias Bolsonaro (PSL) vetou uma propaganda do Banco do Brasil. O que a propaganda apresentava? Jovens, majoritariamente não-brancos, com roupas coloridas, cortes de cabelo variados, em situações diversas. A justificativa do presidente: “A linha mudou, a massa quer respeito à família, ninguém quer perseguir minoria nenhuma” (JORNAL NACIONAL, 2019).
O que esses três fatos revelam? A estrutura do racismo brasileiro, um racismo baseado na negação da cor, que tem origem nas relações entre cor e condição social da sociedade escravista brasileira nos séculos XVII e XIX.
Como se formou a sociedade escravista? Com a chegada dos portugueses no século XVI e o processo colonial que visava produzir abastecer os portos europeus, a mão de obra se torna um problema que foi facilmente resolvido. Sob justificativa religiosa[2] e necessidade econômica, a partir do século XVII, o comércio de escravizados é intensificado exponencialmente pelo comércio bilateral do Atlântico, como revela o professor Luiz Felipe de Alencastro, em entrevista dada a UnBTV. Mais de 12 milhões de pessoas foram trazidas sob coerção para as Américas (FLORENTINO, 2015).
A escravidão não era em si uma novidade: as sociedades que viviam as margens do Atlântico a conheciam diversas modalidades de cativeiro (ritualizado, por dívida, para trabalho, por guerra, entre outros). Todavia a escravidão nas proporções que tomou a partir do tráfico atlântico e de forma arraigada como foi na colônia portuguesa constituiu algo novo. Ter escravos era condição para a reprodução social (LARA, 2007).
Silvia Lara, ao analisar a dinâmica de mestiçagem, afirmou que a divisão social existente na América Portuguesa está muito além das dicotomias brancos e negros ou senhores e escravos. Primeiramente porque as cidades da colônia eram cidades negras, na proporção de 14 negros para cada 1 branco, o que gerava um medo constante, mas, além do medo, gerava pressão na administração europeia de tal forma que foi necessário adaptar a nobilitação para o Novo Mundo: ser nobre era ser senhor de escravos e de terras, ou seja, ser nobre era ter patrimônio. A nobreza não estava necessariamente ligada a cor da pele, tanto que a condição social modificava a classificação étnica das pessoas: em uma vida de sucesso, nascia-se negro e morria-se pardo (LARA, 2007).
Da mesma forma que a nobreza não estava ligada a cor da pele, a liberdade também não. Existiam diferentes graus de liberdade ligados a mobilidade espacial, a posse de escravos e a postura do “não trabalho” associada a sedentarização voluntária. O acumulo desses fatores concedia uma “liberdade plena”. Em um primeiro grau, quando só se possui a liberdade ligada a mobilidade espacial, a linha entre cativeiro e libertação era muito tênue, a qualquer momento o indivíduo poderia ser capturado e acusado de ser um “escravo fugido”, da mesma forma que era possível um escravo fugido passar a vida como livre, caso conseguisse sedentarizar-se voluntariamente, comprar alguns escravos e viver do trabalho deles ou mesmo trabalhar ao lado deles. Ou seja, o afastamento do cativeiro era uma construção social (MATTOS, 1998).
Enquanto o tráfico de escravos descrito no início do texto não cessou, a realidade da América Portuguesa foi a descrita acima. Até mesmo com a Independência essa realidade foi mantida. E a Independência promoveu uma ressignificação da escravidão, em uma postura ativa que mudou a pauta das relações internacionais do Brasil. A escravidão passou se relacionar com a soberania do Império. Todavia, no restante do mundo pós-Revolução Industrial, pautas humanistas e econômicas tendiam para o fim da escravidão. Dentro do Brasil, uma massa de livres e libertos de cor passou a desafiar a administração escravista. As pressões externas e internas foram tamanhas que a realidade sólida e estável do Brasil se rompeu: o governo este se viu obrigado a promulgar leis para o fim do tráfico e, mais tarde, o fim da escravidão. Essas leis mudaram de forma drástica a realidade brasileira e, com isso, o significado de liberdade, todavia essa é outra discussão (MAMIGNONIAM, 2014).
Mesmo com muitas mudanças, algo se manteve até a atualidade. O que os fatos citados na abertura do texto demonstram de forma clara: o racismo brasileiro, racismo que não é melhor nem pior que os racismos do restante do mundo, mas que é baseado na negação e na invisibilidade. Quando a Caixa Econômica Federal apresenta um Machado de Assis branco ela reforça o racismo. Quando H. Mourão fala de embranquecimento na família ele reforça o racismo. Quando o presidente do país fala em minoria, ele deve ter esquecido (ou talvez nem mesmo lido) que as pesquisas recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelam que a população não-branca do Brasil já supera os 50%,  e, dessa forma, ele reforça o racismo.

REFERENCIAS
ALENCASTRO, Luiz Felipe. Diálogos: O Brasil construído por negros. 2019. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=5eeAIwhfNGU>. Acesso em: 12 out. 2019.

Caixa tira do ar propaganda que mostra Machado de Assis branco. 2011. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2011/09/caixa-tira-do-ar-progaganda-que-mostra-machado-de-assis-branco.html>. Acesso em: 12 out. 2019.

DOCA, Geralda. 'Fui um idiota', diz Mourão após fala sobre 'branqueamento da raça'. 2018. Jornal O GLOBO. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/fui-um-idiota-diz-mourao-apos-fala-sobre-branqueamento-da-raca-23136592>. Acesso em: 12 out. 2019.

FLORENTINO, Manolo. Aspectos do tráfico negreiro na África Ocidental (c.1500-c.1800). IN.: FRAGOSO, João & GOUVÊA, Maria de Fátima (orgs.). O Brasil colonial. Vol. 1. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015, p. 229-268.

IBGE. População. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao.html>. Acesso em: 12 out. 2019.

JORNAL NACIONAL. Bolsonaro volta a defender veto à propaganda do Banco do Brasil. Portal de Notícias G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/04/27/bolsonaro-volta-a-defender-veto-a-propaganda-do-banco-do-brasil.ghtml>. Acesso em: 12 out. 2019.

LARA, Silvia Hunold. A multidão de pretos e mulatos. IN.: ________. Fragmentos setecentistas. Escravidão, cultura e poder na América portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 126-172; p. 323-340 (notas).

MAMIGONIAN, Beatriz. A proibição do tráfico atlântico e a manutenção da escravidão. IN.: GRINBERG, Keila & SALLES, Ricardo (orgs.). O Brasil Imperial. Vol. I: 1808-1831. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014, p. 207-233.

MATTOS, Hebe. Uma experiência de liberdade (Primeira Parte). IN.: ________. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista. Brasil Século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p. 25-104.




[1] aquilo com que se orna ou enfeita; adorno.
[2] Catequização pelo trabalho.

Relatório: Sentido da colonização


PRADO JÚNIOR, Caio. Sentido da colonização. In: PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo :Brasiliense; Publifolha, 2000, p.07-21.

Numa linha marxista, Caio Prado escreve no século XX com um gosto amargo do passado pesando sobre a nação. Para esse autor a história está além de uma sequência de fatos e não devia engrandecer pessoas ou fatos pontuais. É com essas premissas que Caio Prado Junior escreve “Formação do Brasil Contemporâneo”, cujo capitulo inicial é alvo de síntese nesse texto.
A partir do determinismo econômico, o sentido da colonização foi fornecer ao comércio europeu gêneros de grande importância, de tal forma que a economia da colônia fosse inteiramente subordinada a demanda externa. O pouco que existia para além era voltado à subsistência. Ou seja, a colonização do Brasil não se separa da expansão comercial e marítima europeia. Eram bases da colonização: (1) a grande propriedade; (2) a monocultura; e (3) o trabalho escravo.
O grande desafio da colonização foi o povoamento de um território semideserto: com condições diversas as de Portugal, não era possível realizar uma mera transposição da sociedade lusa. Dessa forma foi necessário criar algo novo: um organismo social distinto e próprio, que do ponto de vista econômico era uma completa novidade.

Mundo pós revolução industrial


I PROVA HEG
1.      TEXTOS DO HOBSBAWM
1.1.QUESTÃO 01: “A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL” + “RUMO A UM MUNDO INDUSTRIAL” + “CONCLUSÃO: RUMO A 1848”
Apesar de explodir em 1780, a Revolução Industrial só se faz sentir de forma clara em 1840. Antes da Revolução, o crescimento econômico era como “marés” (crescia e decrescia esporadicamente), sendo que os declínios econômicos se davam principalmente por aspectos naturais ou guerras. Todavia, depois de 1780 o crescimento é unidirecional. Mas o que levou a esse processo em que, no auge, a produção atinge pontos nunca antes observados?
Um rei morto, o problema das terras resolvido, a exaltação do lucro privado e do desenvolvimento econômico. Com isso a Inglaterra estava pronta para engatar a Revolução. E foi o que aconteceu. Ao contrario do que parece, a Revolução Industrial não dependeu de um quadro intelectual/acadêmico de peso, posto que o sistema de educação superior na Inglaterra era medíocre se comparado a outras partes da Europa. Mas, dos pontos citados, talvez a resolução precoce do problema do campo seja o que contribuía com a maior parcela para o pioneirismo britânica.
É valido lembrar que o campo era determinante na vida (e morte) das pessoas, e, ao ser transformado em mercadoria, muitas pessoas sofrem com o processo, sendo forçadas a passarem pelo êxodo campo-cidade. Todavia, essa transformação não é passiva, os proprietários e os produtores tradicionais, acostumados com o sistema feudal, são um obstáculo a ser superado de com graus diferentes de violência. As massas que chegaram as cidades se tornaram parte proletários miseráveis e parte “vagabundos”, vivendo na extrema pobreza, o que fez com que debates sobre renda mínima chegassem ao governo inglês. Aplicados, mesmo que carregados de boas intenções, não obtiveram sucesso, pois geraram uma diminuição dos salários e elevação do tempo de trabalho.
E o restante do mundo, em que situação se encontrava? (1) A França era um paradoxo, os capitais locais iam para o estrangeiro e a Revolução Francesa colocou a terra nas mãos dos camponeses; (2) os EUA tinham carência de capital e trabalho, além do conflito quanto a unificação; (3) a Rússia, apesar de grande e detentora de riquezas naturais, era economicamente desprezível.
Desse modo, em 1848 só a Inglaterra estava industrializada e os efeitos dessa industrialização eram modestos e, em um panorama mais amplo, visto “de cima”, as indústrias eram pontuais, se localizando em pequenas e medias cidades. Então o que aconteceu de grandioso para que o período merecesse tanto debate?
As grandes mudanças que ocorreram foram: uma explosão demográfica, um dinamismo ocasionado pela evolução das comunicações e dos transportes e um aumento exponencial do volume de comercio e emigrações. O mundo acabou divido em países desenvolvidos e subdesenvolvidos, uma teoria de dependência “benéfica”, ligada as vantagens comparativas, elaborada por Ricardo. Mas, apesar de atingir níveis de produção muito elevados, a “era dos superlativos” também gerou um espraiamento da pobreza e da miséria, com grande parcela da população envolvida por vícios. No âmbito político-social as mudanças foram modestas, o que tornou a Revolução de 1848 iminente. 

1.2.QUESTÃO 02: “A GRANDE EXPANSÃO” – O ALGE DO LIBERALISMO
A partir de 1848, com o descontentamento do campesinato nascente, boa parte dos governos europeus foi varrido. As classes dominantes, temerosas, reprimiam violentamente possíveis insurgências. Todavia, existia um grau de otimismo muito elevado a partir de 1850 pela expansão elevada, principalmente das economias emergentes, que com o capital barato e as inovações, constituíram um período deflacionário. A taxa de empregos era crescente, assim como os salários, e isso amenizou o descontentamento popular, colocando a política em hibernação.
O progresso é ditado não só pelas grandes mudanças do mundo industrial (dinamismo e expansão do mercado), mas também pelo liberalismo econômico. Este muito mais benéfico para os países desenvolvidos, atraiu os subdesenvolvidos com a expansão comercial e a possibilidade de utilização do know-how inglês.
Os resultados dessa receita fácil para o progresso foram: (1) espraiamento da desigualdade; (2) EUA ultrapassou a Inglaterra; (3) um avanço sem paralelos da Alemanha; (4) atenção fundamental dada a pesquisa e a educação, objetivando a manutenção do desenvolvimento tecnológico; (5) aumento da confiança entre homens de negócios; e (6) a “Grande Depressão”, que minou as bases liberais.

2.      TEXTOS DO ANDRE GUNDER FRANK
2.1.QUESTÃO TRÊS: OS 3 ESTÁGIOS DE “EVOLUÇÃO” DA ÁSIA
Num primeiro estágio do desenvolvimento do subdesenvolvimento asiático, a partir do “intercambio desigual”, os europeus trocavam seu ouro e prata por manufaturas e produtos primários em entrepostos comerciais. Não houve presença militar coercitiva, a administração asiática era avançada, e, nesse primeiro momento, os europeus dependiam muito mais dos produtos asiáticos que o contrário. Os impactos sobre os modos de produção na Ásia foram mínimos. O processo de submissão começa por conflitos no sudeste asiático, com destaque a Índia e Indonésia, onde a colonização se dará com a presença intensa de europeus, civis e militares, até o século XIX.
A Ásia, para um segundo e terceiro estágios de transformação dos modos de produção ou de desenvolvimento do subdesenvolvimento, é muito interessante, pois oferece diferentes escalas de penetração do colonialismo e neocolonialismo europeus. No grau máximo de exploração encontram-se Índia e Indonésia, e algumas outras localidades do sudeste asiáticos, onde a presença europeia foi massiva. No caso indiano, a dependência se deu pela construção de ferrovias e pela dívida que a administração inglesa do país gerou. No caso da Indonésia, o desenvolvimento da plantation e o corte de relações com a China foram os maiores motivos da dependência holandesa. A China está no meio termo, permaneceu fechada por muito tempo e o tráfico do ópio acabou por abrir as fronteiras, todavia a penetração colonial não foi tão profunda quanto a da Índia ou Indonésia. Por fim, no grau mínimo, o Japão: um território fragmentado e sem riquezas naturais aparentes não atraiu a atenção dos europeus. O país permaneceu fechado e desenvolveu-se sozinho por quase 300 anos, tendo seus portos abertos “na bala” no século XIX.

FONTES

HOBSBAWM, Eric. A revolução industrial. Em: HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções 1789-1848. 15° ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 2001, p.43-69.

______. A terra. Em: HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções 1789-1848. 15° ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 2001, p.167-186.

______. Rumo a um mundo industrial. Em: HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções 1789-1848. 15° ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 2001, p.187-201.

______. Conclusão: rumo a 1848. Em: HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções 1789-1848. 15° ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 2001, p.321-332.

FRANK, André Gunder. Acumulação mundial de capital, padrões de comércio e modos de produção, 1500-1770. In: FRANK, André Gunder. Acumulação dependente e subdesenvolvimento: repensando a teoria da dependência. São Paulo : Brasiliense, 1980, p.34-46.

______. A revolução industrial e a pax britannica, 1770-1870.In: FRANK, André Gunder. Acumulação dependente e subdesenvolvimento: repensando a teoria da dependência. São Paulo : Brasiliense, 1980, p.97-120.

______. O imperialismo e a transformação dos modos de produção na Ásia, África e América Latina, 1870-1930. In: FRANK, André Gunder. Acumulação dependente e subdesenvolvimento: repensando a teoria da dependência. São Paulo : Brasiliense, 1980, p.174-209.

HOBSBAWM, Eric. A grande expansão. Em: HOBSBAWM, Eric. A era do capital 1848-1875. 9° ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p.53-77.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

UM OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE “NÓS”


UM OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE “NÓS
Concordo com François Laplantine, quando, em “Aprender Antropologia”, afirma que a antropologia, antes de tudo, é um olhar. Antes de ser campo de conhecimento, antes de ser ciência ou arte, antes de ser uma teoria do social[1] ou linguagem, a antropologia é um olhar sobre o mundo, sobre os processos macro e micro que fazem parte do cotidiano. Do parto à morte, da forma de dormir ao jeito de levantar, da sala de aula ao cinema, tudo contem antropologia e está contido na antropologia, bastar aprender a olhar de uma outra maneira. Todavia, o trajeto para a construção dessa forma de olhar o mundo não foi tranquilo, sua gênese remonta o período das grandes navegações, dos iluministas franceses, do auge do darwinismo não só na biologia, mas em todas as áreas, e voltar a esse período não é uma tarefa fácil. A leitura ajuda, mas no Brasil são poucas as pessoas com acesso a livros de qualidade, sem falar que não são muitas as pessoas com a capacidade funcional da alfabetização, mas a modernidade trouxe consigo uma ferramenta muito útil para a ciência e muito prazerosa para grande parte das pessoas: o cinema.
Os filmes podem dar forma imaginação, uma imagem pode expressar inúmeras palavras, muitas que nem mesmo conhecemos. As varias realidades alternativas expressas em uma ou duas horas nos levam a passados longínquos ou a futuros macabros, ao topo de montanhas ou ao buraco mais escuro do fundo do mar, a Marte ou ao sol. Podem ilustrar, com metáforas ou reconstruções, realidades perdidas no tempo, ou intencionalmente apagadas, basta procurar.
Todavia, não são muitos os que aproveitam todo o potencial desse tipo de arte. Há milhares de filmes que poderiam servir de pano de fundo e ajudar a criar empatia com os mais diversos conteúdos, e quando o debate é na antropologia, esses milhares se multiplicam, afinal, antropologia é, antes de tudo, um olhar. Talvez os “clássicos” da academia, como “Tempos Modernos”, “Desmundo” ou “O Enigma de Kaspar Hauser” já estejam muito batidos e, para um público mais jovem, recém-chegado no ambiente universitário, sejam um tanto quanto entediantes, mas o universo cinematográfico não se restringe só a esses filmes “mastigados”.
O olhar antropológico de que tanto falo está em tudo, e talvez, seja nas sutilezas que ele brilhe mais. Por esse motivo, é possível, e muito mais atrativo, discutir filmes que atinjam um público mais amplo.  É o caso deste texto. Com um filme recém lançado e voltado para um público menos restrito, pretendo debater a gênese da antropologia enquanto ciência, remontando nas metáforas de um terror de invasão domiciliar as premissas e conclusões dos evolucionistas Edward Burnett Tylor, Lewis Henry Morgan e James George Frazer. Talvez seja um desafio treinar a nossa visão para as sutilezas e as metáforas, e a dificuldade aumenta quanto temos como objeto de análise um filme que pretende causar medo, mas o objetivo é mostrar como a antropologia contem e está contida em tudo, como esse olhar antropológico pode mudar a realidade.
Por que escolher um filme de terror? Por mais curioso que possa parecer, os filmes de terror me encantam, e isso pesa na decisão. Outro ponto é o desejo de mostrar como é possível aplicar o tal olhar antropológico em situações variadas. Mas, acima de qualquer outro motivo, a escolha se deve pelo fato de a gênese da antropologia ser assustadora. Antes de prosseguir com a leitura, recomendo fortemente que assista o filme “Nós” (“US”, na língua original), de 2019, dirigido por Jordan Peele[2].  As reflexões que serão expostas vão carecer de explanação sobre as surpresas que o filme apresenta, possivelmente atrapalhando a primeira experiência com a obra.
Em síntese, “Nós” retrata a história de uma família que vai a praia descansar. Todavia, o que encontrar são cópias “do mal” que viviam em um mundo subterrâneo e conseguem subir ao mundo superficial, procurando, pela primeira vez, protagonismo e agência sobre suas próprias vidas, mesmo que para isso tenham que se sujar de sangue “inocente”. Esse filme tem duas camadas distintas: na primeira consta o terror “real”, da invasão domiciliar, da violência envolvida no conflito de interesses; na segunda, uma camada muito mais metafórica, a obra faz uma crítica a uma sociedade de privilégios que se mantem pela exploração e exclusão. É na segunda camada que esse texto encontra seu alvo de estudo, as metáforas que o filme sugere podem remontar o movimento evolucionista da antropologia, e dedicarei atenção a elas a partir de agora.
A primeira delas é a existência de dois “mundos”, duas realidades literalmente sobrepostas: o mundo da superfície, que chamarei de iluminado, e o mundo subterrâneo. Essa metáfora pode ser lida como referência ao período das grandes navegações e do achamento do “Novo Mundo” pelos europeus, contexto das primeiras discussões sobre antropologia e seu lugar na academia. O mundo iluminado seria o europeu, com suas instituições sociais e civis avançadas, localizando-se no ultimo degrau de uma escada evolutiva pela qual toda a “raça” humana iria passar, carregando o estandarte da civilização. E o subterrâneo, as Américas, as “descobertas” europeias, os nomeados “primitivos”, carentes de invenções e descobertas, num estágio de desenvolvimento muito inferior ao europeu.
Posto que o mundo iluminado seria a Europa e o mundo subterrâneo as Américas, o primeiro contato entre pessoas desse mundo é assustador, afinal são “iguais”, no filme: literalmente igual; metaforicamente, biologicamente iguais.  Se o novo é “igual” biologicamente, a diferença está no comportamento. Essa foi a premissa dos primeiros antropólogos, os evolucionistas. O método comparativo promovido por Tylor, numa lógica cartesiana de dissecar-classificar-comparar, objetivava encontrar leis universais que explicassem uma sequencia natural e necessária de evolução, retirando a agencia das pessoas sobre os processos históricos e sobre a própria vida.
Essa ausência de agencia também é exposta de forma metafórica no filme: as pessoas do mundo subterrâneo passam involuntariamente pelos mesmos eventos que os iluminados realizam autonomamente. O que pode ser interpretado como o “processo civilizatório” apresentado por E. Tylor, um processo que poderia ser agilizado com um guia, com uma “tutela civilizatória”.
Nesse aspecto, a ausência da fala dos subterrâneos pode representar a inferiorização a qual os nativos estavam submetidos nessa lógica evolucionista, e é só com a orientação de uma iluminada que os subterrâneos conseguem chegar à superfície, ficando clara a “tutela civilizatória”. É uma lógica muito evidente nos escritos de Frazer, que tinha os primitivos como pouco intelectuais que careciam de liderança, deveriam ser governados. Os subterrâneos abandonam uma realidade rudimentar e estacionada para viver no mundo iluminado e esclarecido da civilização.
O filme ainda ilustra o que deveria ser o maior medo dos antropólogos de gabinete: o advento dos primitivos, uma ruptura violenta literal e metaforicamente, a tomada do lugar que era dos civilizados “por direito”, e a sua ocupação por selvagens/bárbaros. É possível perceber esse receio dos evolucionistas pela insistência que tinham em defender que as explicações de mundo dos “primitivos” não superavam a ciência, pois eram mágicas e/ou religiosas convertendo-se não em conhecimento, mas em pseudo-ciência ou pseudo-arte. Nos termos do filme, esse medo seria o “desacorrentamento” proposto pela antagonista.
Uma última reflexão que poderia ser feita é sobre o uso da violência como reflexo de uma barbárie/selvageria, todavia tanto os iluminados quanto os subterrâneos recorrem a violência, o que colocaria os dois povos num mesmo patamar. É fato que a inferiorização criada pelos iluminados gera incomodo nos subterrâneos, mesmo que os indivíduos não tenham culpa por terem nascido na superfície ou no mundo “inferior”, mas isso de maneira nenhuma justifica o uso da força, bem como nada deveria justificar.
Por fim, é necessário deixar evidente que toda interpretação é particular e única, ligada ao contexto de vida de cada pessoa. E é essa a graça de todo tipo de arte: o choque entre diferentes interpretações/visões de mundo. Com esse texto objetivei aplicar um olhar antropológico sobre uma obra cinematográfica para compreender o momento em que a antropologia surgia enquanto conhecimento científico e a forma como os primeiros antropólogos pensavam e olhavam o mundo.
É obvio que a visão desses pioneiros foi eurocêntrica, preconceituosa, reducionista, simples, entre outros adjetivos pejorativos, mas não é por isso que deve-se negar a existência dessa primeira escola de pensamento (a evolucionista) ou deixar de reconhecer os pontos positivos que ela propiciou: a institucionalização da disciplina, um primeiro objeto (o “primitivo”), um primeiro método (o comparativo). Sem o trabalho desses “colecionadores de borboleta” a antropologia provavelmente estaria ainda anexa ou a sociologia ou a história.
Espero que com esse escrito tenha demonstrado uma parte ínfima do que esse olhar antropológico é capaz. Ele nos possibilita a enxergar um outro mundo, não superior nem inferior, mas paralelo. Não tem por objetivo julgar, mas compreender e respeitar. E talvez a maior missão do antropólogo seja possibilitar esse olhar a toda a sociedade, construindo um ambiente de convivência menos predatório e mais cooperativo, valorizando os múltiplos saberes que vão para muito além da academia.

REFERÊNCIAS
Anotações feitas em sala de aula no ano de 2019 durante as aulas de Introdução a Antropologia e Teoria Antropologia, ministradas respectivamente por Dra. Giovana Acácia Tempesta e Dra. Silvia Maria Ferreira Guimarães.
LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Editora Brasiliense, 2003.
CONNEL, Raewyn. 2012. A iminente revolução na teoria social. In: RBSC, vol.27, n°80.
TYLOR, Edward. B. 2005 [1871]. “A ciência da cultura”. In: Evolucionismo cultural – Textos de Morgan, Tylor e Frazer. Castro, Celso (org.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. P.67-99.
MORGAN, Lewis Henry. 2005 [1877]. “Sociedade antiga”. In: Evolucionismo cultural – Textos de Morgan, Tylor e Frazer. Castro, Celso (org.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. P.43-65
FRAZER, James George. 2005 [1908]. “O escopo da antropologia social”. In: Evolucionismo cultural – Textos de Morgan, Tylor e Frazer. Castro, Celso (org.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. P.101-127.
Nós, Us (Original). Direção de Jordan Peele. Estados Unidos da América: Universal, 2019. P&B.





[1] Raewny Connel propõe, em “A iminente revolução na teoria social”, que o principal produto da antropologia deve uma teoria do social, que leve em conta os aspectos socioeconômicos e geopolíticos da realidade em que é praticada. Um ponto de vista muito diferente do evolucionismo, alvo desse texto.
[2] Jordan Peele é um ator e cineasta norte americano, premiado, pelo filme “Get Out”, em 2018 com o Oscar de melhor roteiro, sendo o primeiro negro a ganhar o prémio nessa categoria. A crítica social metafórica é uma das características de suas obras.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

RESUMO: A entrevista do tipo qualitativo,JEAN POUPART


RESUMO: JEAN POUPART

POUPART, Jean. “A entrevista do tipo qualitativo: considerações epistemológicas, teóricas e metodológicas”. Em: POUPART, Jean et. al. A pesquisa qualitativa. Enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis: Vozes, 2004.

Há quem defenda que o fato de o objeto de pesquisa das ciências humanas ter a capacidade de falar é uma verdadeira vantagem sobre as ciências naturais. Por outro lado, existem pesquisadores que acreditam que a fala é a maldição com que os cientistas sociais tem que lidar. Longe de uma unanimidade, Jean Poupart pretende trazer argumentos contra e a favor das entrevistas, estratégias para um melhor desempenho do pesquisador que adotar entrevista como método e, por fim, debater sobre a questão dos vieses, a grande ameaça do entrevistador para si mesmo.
No que concerne aos argumentos, eles se dividem geralmente entre três escolas: a positivista, a construtivista e a pós-estruturalista. A escola positivista busca suas bases na metodologia das ciências naturais que se dizem neutras, objetivas e imparciais. A escola construtivista acredita na união dos saberes para a produção do conhecimento. E a pós-estruturalista, numa linha mais próxima da escola construtivista, defende a agencia do entrevistador e dos entrevistados sobre a construção de uma narrativa que é só uma entra inúmeras outras possibilidades que estão contidas numa “realidade total”.
Os pesquisadores que faze uso do método das entrevistas, normalmente, recorrem a três argumentos-chave: (1) a possibilidade de explorar em profundidade a perspectiva do entrevistado; (2) a possibilidade de conhecer e compreender os dilemas do entrevistado; e (3) o fato da entrevista ter privilegio no acesso a experiencia dos entrevistados.
Quando aos argumentos contrários a essa metodologia, são também três os principais: (1) a influencia de um saber leigo; (2) a possibilidade de falseamento das informações; e (3) os riscos de etnocentrismo por parte do pesquisador.
Conhecendo os argumentos a favor e contra esse método de pesquisa, passemos para a realização da entrevista. Antes de mais nada, entrevistar é uma arte. Eu afirmaria que até mais que arte, entrevistar é uma ciência, como a programação neurolinguística [PNL]. Obter a cooperação do entrevistado é uma tarefa árdua e no processo podem aparecer várias formas de resistência, como a falta de tempo e interesse, temor de uma violação da intimidade, sentimento de servir como cobaia, etc.
O processo para obter uma entrevista de qualidade vai depender de muita negociação, mas no que depende do entrevistador, o texto apresenta muitas dicas uteis. Talvez a principal delas seja a construção de uma empatia, é esse sentimento que acima de qualquer outra coisa propiciará ao entrevistado sentir-se à vontade com o entrevistador. Para além da empatia, são recursos uteis: (1) a autoridade/credibilidade de terceiros; (2) a escolha de momento e local mais adequado para a entrevista; (3) a camuflagem do entrevistador, adaptando-se ao meio em que realiza a pesquisa e tentando neutralizar a sua presença, evitando interromper o entrevistado, respeitando seus momentos de silêncio, tranquilizando o entrevistado quanto ao uso do depoimento. As ferramentas são várias para o mesmo objetivo básico: construir empatia para que o entrevistado se sinta à vontade.
Nesse aspecto a PNL tem muito a contribuir. Vários cientistas - e charlatões - se dedicaram a como entender e influenciar pessoas. Todavia, para a pratica cientifica devemos nos ater a parte de como entender pessoas. A PNL ensina a prestar atenção nos pequenos detalhes, entender os sentimentos pelo comportamento corporal, e acima de tudo, a conquistar empatia, a questão-chave da boa entrevista.
Quanto a questão dos vieses, são a grande armadilha desse método de pesquisa. São divididos em três tipos: (1) ligado aos dispositivos de investigação, as alterações que os dispositivos podem causar, a forma com que os dados são registrados e a influencia do local e do momento em que se realizou a pesquisa; (2) ligado a relação entrevistador-entrevistado, são referentes ao comportamento do entrevistador durante a pesquisa, as suas intervenções verbais e não verbais, e a demonstração (ou não) de interesse no pesquisado; e (3) ligado ao contexto da pesquisa, este basicamente diz respeito a possibilidade de mentir que aumenta ou diminui a depender do contexto de realização da pesquisa.
Antes de concluir, J. Poupart ainda reserva parte do texto para realizar criticas quanto a padronização e a diretividade nas entrevistas, desmistificando muitas práticas que se popularizaram entre pesquisadores no século XX e que falseavam os resultados das investigações. As críticas se encerram com a afirmativa de que a entrevista é um discurso socialmente construído, muito ligado ao contexto de realização da pesquisa.
Por fim, o autor conclui afirmando ter atendido os objetivos que propôs para a construção do texto, e retomando dois pontos que para ele são relevantes: (1) o resultado da entrevista como uma construção cooperativa entre entrevistador e entrevistado; (2) aos cuidados que os pesquisadores devem ter com o espaço aberto aos diversos pontos de vista dos atores socias e a necessidade de tomar partido do grupo pesquisado.







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